Em pacientes acima de 80 anos, uma síndrome amnéstica progressiva deixou de autorizar a inferência automática de doença de Alzheimer. Diferenciar LATE e doença de Alzheimer passou a ter consequência prática imediata no Brasil: desde a aprovação do donanemabe pela Anvisa em 2025 e do lecanemabe em dezembro de 2025, existe uma decisão terapêutica que depende de saber qual proteinopatia está dirigindo o quadro, e o perfil neuropsicológico é uma das primeiras evidências disponíveis nessa cadeia.

O que é a LATE

LATE é a sigla para limbic-predominant age-related TDP-43 encephalopathy, encefalopatia TDP-43 relacionada à idade com predomínio límbico. A entidade foi definida em 2019 por um grupo de consenso internacional a partir do achado neuropatológico de inclusões citoplasmáticas da TDP-43 (proteína de ligação ao DNA TAR, de 43 kDa) em estruturas límbicas. Esse achado recebe o nome de LATE-NC, alteração neuropatológica da LATE, e progride em estágios com topografia previsível: amígdala primeiro, depois hipocampo, depois giro frontal médio.

Dois pontos fazem da LATE um problema clínico, e não uma curiosidade de autópsia. O primeiro é a frequência: LATE-NC aparece em cerca de 40% dos cérebros autopsiados acima dos 85 anos, com estimativas entre 20% e 55% em casuísticas de idosos, conforme o critério de estadiamento e o viés de seleção da coorte. O Biobanco para Estudos do Envelhecimento da Faculdade de Medicina da USP é uma das coortes populacionais incluídas na análise conjunta de 13 estudos de autópsia que consolidou esses números, o que torna a estimativa minimamente aplicável à população brasileira.

O segundo ponto é a coocorrência. LATE-NC raramente aparece sozinha em pacientes muito idosos. Ela se soma às alterações neuropatológicas da doença de Alzheimer (ADNC: placas neuríticas de amiloide e emaranhados neurofibrilares de tau) e frequentemente vem acompanhada de esclerose hipocampal, ou seja, perda neuronal e gliose acentuadas na formação hipocampal. É essa combinação que produz a maior parte da variabilidade clínica que o neuropsicólogo observa na prática.

Vale separar a LATE de outras proteinopatias TDP-43. Sua distribuição é restrita ao sistema límbico, com pouca atrofia cortical, ao contrário da degeneração lobar frontotemporal com TDP-43 (DLFT-TDP) e da esclerose lateral amiotrófica. Clinicamente, isso significa que a LATE não cursa com a desorganização comportamental nem com o quadro afásico progressivo típicos da DLFT.

Da autópsia aos critérios clínicos: LATE provável e LANS

Até 2024 não havia como nomear esse quadro em vida. Hoje há duas propostas complementares, e o neuropsicólogo precisa reconhecer as duas porque elas circulam em paralelo na literatura.

A primeira são os critérios clínicos de consenso publicados por Wolk e colaboradores em 2025, que classificam o paciente de forma probabilística em LATE provável (perfil clínico e radiológico compatível com biomarcadores de amiloide negativos), LATE possível (perfil compatível com amiloide positivo ou indisponível) e LATE-DA possível (perfil compatível com amiloide e tau positivos, sugerindo copatologia). Os cinco eixos clínicos centrais são: síndrome amnéstica primária com perda temporolímbica, preservação relativa dos demais domínios até fases avançadas, comprometimento leve de memória semântica, curso indolente e atrofia hipocampal significativa.

A segunda é a limbic-predominant amnestic neurodegenerative syndrome (LANS), síndrome neurodegenerativa amnéstica de predomínio límbico, proposta pelo grupo da Mayo Clinic em 2024. A LANS descreve uma síndrome clínica ancorada na localização funcional (o sistema límbico) e é agnóstica quanto à molécula responsável. Seus critérios centrais exigem síndrome amnéstica de instalação insidiosa com progressão gradual por dois anos ou mais, sem outra condição que explique melhor o quadro. Os critérios de apoio incluem idade igual ou superior a 75 anos, síndrome clínica leve com funções neocorticais preservadas, atrofia hipocampal desproporcional à gravidade da síndrome e comprometimento de memória semântica em um quadro leve. Camadas avançadas acrescentam hipometabolismo límbico ao FDG-PET e baixa probabilidade de tau neocortical, gerando quatro graus de certeza (baixa, moderada, alta e máxima).

A diferença conceitual importa: os critérios de LATE estimam a probabilidade de que a LATE-NC seja a etiologia dos sintomas, enquanto a LANS define uma síndrome. Na coorte da Mayo Clinic, todos os pacientes com LATE-NC isolada caíram nas categorias de alta ou máxima probabilidade de LANS, ao passo que 63% dos casos com ADNC isolada caíram na categoria de baixa probabilidade.

Diferenças neuropsicológicas entre LATE e doença de Alzheimer

A amnésia é desproporcional ao restante do perfil

O achado mais consistente é a assimetria intraindividual. Na LATE, o comprometimento de memória episódica domina o perfil e as funções associadas ao neocórtex, como processamento visuoespacial, praxia e funções executivas, permanecem dentro ou próximas do esperado por período prolongado. A doença de Alzheimer de apresentação típica evolui mais rapidamente para comprometimento multidomínio, com a assinatura temporoparietal que o neuropsicólogo reconhece: queda em cópia e organização visuoconstrutiva, em nomeação por dificuldade de acesso lexical, e em componentes executivos de controle.

A operacionalização holandesa desse conceito é útil no laudo. No estudo de Groot e colaboradores publicado na Neurology em 2026, o critério aplicado foi comprometimento isolado de memória ou, nos casos com demência, escore de memória mais de 1 desvio-padrão (DP) abaixo da média dos demais domínios do próprio paciente. Trata-se de uma comparação intraindividual, não de um ponto de corte normativo, e é exatamente o tipo de análise que a avaliação neuropsicológica está posicionada para fazer.

Memória semântica: o achado que mais discrimina e o que menos se mede

Este é o ponto de maior interesse técnico para o neuropsicólogo. Tanto os critérios de LATE quanto os da LANS listam comprometimento de memória semântica como característica de apoio, e a natureza do erro difere entre as duas condições.

Na doença de Alzheimer, a falha de nomeação tende a refletir dificuldade de recuperação lexical: o paciente reconhece o objeto, descreve sua função e se beneficia de pista fonêmica. Na LATE, a evidência disponível aponta para perda da própria representação semântica, com fragilidade do conhecimento consolidado sobre objetos, fatos e pessoas públicas. O exemplo clínico publicado pelo grupo da Mayo Clinic é ilustrativo: uma paciente com CCL amnéstico de domínio único, ainda trabalhando em meio período e independente nas atividades instrumentais, não conseguia recuperar detalhes dos atentados de 11 de setembro de 2001 (em NY, EUA), nomeando outro edifício que não o World Trade Center e desconhecendo quantos prédios foram atingidos. O restante do exame (cognição global, executivas, visuoespacial e linguagem) estava dentro ou acima do esperado.

A ressalva editorial é obrigatória: os próprios autores da LANS optaram por não operacionalizar esse critério na validação, por considerarem a evidência ainda pouco robusta e a definição variável entre estudos. Eles recomendam que o clínico o utilize com julgamento próprio. Ou seja, o achado que mais promete discriminar é justamente o que ainda carece de instrumento validado e de normas.

O tempo é uma variável do diagnóstico

A LATE progride mais devagar. No estudo de coorte de memória de Amsterdã, pacientes classificados como LATE provável declinaram mais lentamente que o grupo com doença de Alzheimer no MiniExame do Estado Mental (MMSE ou MEEM), na memória, na atenção e nas funções executivas. A sobrevida mediana estimada foi de 9,0 anos (IC 95%: 8,3 a 12,2) contra 7,7 anos (7,4 a 8,0) na doença de Alzheimer, com risco de óbito menor (HR = 0,70; IC 95%: 0,49 a 0,99).

O grupo LATE-DA inverte o quadro. Ele declinou mais rápido que a doença de Alzheimer isolada em MEEM, atenção e executivas, e teve maior risco de óbito (HR = 1,25; IC 95%: 1,01 a 1,53), com sobrevida mediana de 5,7 anos. Copatologia não é uma soma neutra, é um agravante. A implicação prática é direta: uma única avaliação transversal não distingue os grupos. A inclinação da curva é a variável discriminativa, e ela só existe com reavaliação.

A dissociação entre psicometria e neuroimagem

A LANS formaliza algo que aparece com frequência nos serviços de neuropsicologia: atrofia hipocampal desproporcional à gravidade da síndrome clínica. Um paciente com CDR-SB baixo e desempenho preservado em quatro domínios, mas com hipocampos visivelmente reduzidos na ressonância, é um candidato a esse enquadramento. Em Amsterdã, pacientes com LATE provável tiveram menor volume amigdaliano e razão espessura temporal inferior sobre volume hipocampal mais alta que o grupo com doença de Alzheimer, indicando padrão de atrofia com predomínio límbico em vez de neocortical.

O papel do neuropsicólogo aqui é documentar a desproporção, não interpretar o exame de imagem. A leitura da neuroimagem cabe ao radiologista e ao neurologista, e a inferência neuroanatômica reversa a partir apenas de escores de teste continua sendo um erro técnico.

 

Dimensão LATE provável Doença de Alzheimer típica
Idade de referência Geralmente 75 anos ou mais Faixa mais ampla, incluindo início precoce
Perfil cognitivo Amnéstico de domínio único ou amnéstico desproporcional Evolução para multidomínio
Domínios não mnésicos Preservados por período prolongado Comprometidos mais cedo (visuoespacial, executivo)
Falha de nomeação Sugere perda de representação semântica Sugere falha de recuperação lexical
Curso Indolente, sobrevida mediana maior Progressão mais rápida
Padrão de atrofia Límbico (hipocampo, amígdala) Temporoparietal lateral e precuneus
Biomarcador de amiloide Negativo Positivo
APOE ε4 Menos frequente Mais frequente

O que muda no comportamento

A camada comportamental é a menos estabelecida, e convém tratá-la com cautela. O estadiamento da LATE começa na amígdala, o que gera a hipótese razoável de manifestações afetivas e de regulação precoces. Descrições clínicas mencionam oscilação de humor, sintomas depressivos, apatia e retraimento social insidioso, muitas vezes atribuídos ao envelhecimento normal pela família.

A evidência empírica é heterogênea. Na análise de Gauthreaux e colaboradores com dados do NACC, entre pacientes com carga baixa ou intermediária de ADNC, a presença de LATE-NC associada elevou a prevalência de apatia, desinibição, agitação e mudança de personalidade, além de piorar o desempenho em memória episódica e em linguagem/memória semântica. Em contraste, o estudo de banco de encéfalos conduzido por Liu e colaboradores não encontrou maior carga neuropsiquiátrica na copatologia: o grupo misto teve escores totais do Neuropsychiatric Inventory (NPI, Inventário Neuropsiquiátrico) e do fator agitação menores que o grupo com ADNC pura.

A leitura defensável no momento é que a LATE não produz uma assinatura comportamental própria e reconhecível à beira do leito. Sintomas neuropsiquiátricos ajudam a caracterizar o caso e a orientar o manejo, mas não servem como critério diferencial.

Implicações para a prática clínica

Ao avaliar um idoso com queixa de memória, algumas decisões de bateria e de redação passam a ter peso diagnóstico.

Caracterize o mecanismo da falha mnésica, não apenas a magnitude. Um teste de aprendizagem verbal com evocação livre, evocação com pista semântica e reconhecimento permite separar falha de codificação e armazenamento de falha de recuperação. Essa distinção é o que sustenta a afirmação de que a síndrome é temporolímbica.

Meça memória semântica de forma explícita. Nomeação por confrontação (como no Boston Naming Test), fluência semântica e conhecimento de fatos e figuras públicas devem entrar na bateria, e a análise qualitativa do erro (paráfase semântica, resposta superordenada, perda de atributos do conceito) vale mais que o escore isolado.

Documente a preservação, não só o déficit. Se as funções visuoespaciais, práxicas e executivas estão dentro do esperado, isso é um achado positivo e precisa constar do laudo com o mesmo destaque dado ao déficit de memória. É a preservação que sustenta a hipótese de predomínio límbico.

Programe a reavaliação. O intervalo de 12 a 24 meses transforma um perfil ambíguo em uma trajetória. Sem inclinação, o dado mais discriminativo da literatura não está disponível para o caso.

Não feche a etiologia. O neuropsicólogo entrega o perfil sindrômico, a desproporção intraindividual e a trajetória. A atribuição etiológica é multidisciplinar e depende de biomarcadores e de neuroimagem que estão fora do escopo do exame neuropsicológico.

Um cuidado brasileiro: escolaridade e normas

Os critérios de memória semântica pressupõem uma base de conhecimento consolidado que é fortemente modulada por escolaridade e por acesso cultural. Na casuística do Biobanco da USP, a mediana de escolaridade fica em torno de cinco anos, um cenário distinto das coortes norte-americanas e holandesas em que os critérios foram desenvolvidos. Aplicar tarefas de nomeação e conhecimento de fatos públicos sem normas adequadas à escolaridade brasileira produzirá falsos positivos de comprometimento semântico. Isso não invalida o critério, mas exige que o percentil, e não o escore bruto, oriente a leitura, e que a base normativa utilizada seja explicitada no laudo.

Limitações e cuidados interpretativos

Não existe biomarcador de TDP-43 validado para uso in vivo. Toda classificação de LATE ou LANS é probabilística e permanecerá assim até que marcadores em líquor, plasma ou PET amadureçam. Os critérios também não foram validados neuropatologicamente de forma prospectiva.

As amostras com LATE-NC isolada são pequenas. No estudo da Mayo Clinic, apenas nove pacientes tinham LATE-NC sem ADNC, e as comparações de grupo não atingiram significância provavelmente por limitação amostral. O modelo de classificação binária alcançou acurácia balanceada de 74,6%, desempenho moderado.

O corte de idade não é rígido. No estudo de Amsterdã, os pacientes classificados como LATE provável não eram mais velhos que os do grupo com doença de Alzheimer, com idade média da coorte de 66 anos. O critério de 75 anos aumenta a probabilidade, não a estabelece.

A LANS não mapeia uma única patologia. Doença por grãos argirofílicos, doença com corpos de Lewy, tauopatia relacionada à idade (PART) e a variante límbica da própria doença de Alzheimer também podem produzir o mesmo quadro sindrômico. Por fim, as coortes existentes têm pouca diversidade cultural, étnica e socioeconômica, limitação apontada explicitamente pelos próprios autores.

Quanto ao contexto terapêutico, o Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia publicou posicionamento que caracteriza o benefício clínico dos anticorpos antiamiloides como modesto diante de riscos relevantes, e enfatiza seleção criteriosa de pacientes e confirmação obrigatória da patologia amiloide. Há posição ainda mais restritiva na literatura nacional, como a de Nitrini e Studart-Neto nos Arquivos de Neuro-Psiquiatria. Nesse debate, identificar corretamente quem tem uma síndrome amnéstica de predomínio límbico sem amiloide é tanto uma questão de precisão diagnóstica quanto de proteção do paciente contra uma exposição terapêutica sem benefício esperado.

Considerações finais

A LATE não é uma variante rara. É uma das causas mais frequentes de síndrome amnéstica em idosos e, por muito tempo, foi lida como doença de Alzheimer atípica de curso lento. O que a avaliação neuropsicológica pode oferecer hoje é a caracterização precisa da desproporção entre memória e demais domínios, a análise qualitativa da falha semântica e a documentação da trajetória ao longo do tempo. Nenhum desses três elementos depende de tecnologia indisponível no Brasil. Todos dependem de escolha de instrumentos, de normas adequadas e de redação criteriosa.

 

Referências

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DANILO PEREIRA