A pergunta costuma chegar no fim da devolutiva, depois que o perfil cognitivo já foi apresentado: o que eu faço agora para não chegar lá? Em 15 de julho de 2026 a Organização Mundial da Saúde publicou a segunda edição das suas diretrizes de redução de risco de demência, a primeira atualização desde 2019, e ela permite responder a essa pergunta com precisão — incluindo a parte que ainda não pode ser prometida.

O que mudou em relação à edição de 2019

A segunda edição mantém o método GRADE para classificar separadamente a certeza da evidência e a força de cada recomendação, e amplia o escopo em duas direções. Cinco recomendações foram reafirmadas com a evidência acumulada desde 2019: alimentação saudável, redução do uso nocivo de álcool, cessação do tabagismo, manejo da dislipidemia e atividade física. Oito temas entraram pela primeira vez na avaliação formal: sono, HIV, poluição do ar, traumatismo cranioencefálico, comprometimento visual, menopausa, acidente vascular cerebral e intervenções multidomínio.

Entre os temas novos, dois receberam recomendação favorável: a redução da exposição à poluição do ar, incluindo a poluição intradomiciliar, e a implementação de intervenções multidomínio personalizadas. Os demais foram avaliados e a evidência foi considerada insuficiente para sustentar uma recomendação específica com finalidade de redução de risco cognitivo.

Essa é a distinção que mais importa na leitura do documento e a que mais se perde na cobertura de imprensa. Identificar um fator de risco em estudos observacionais não equivale a demonstrar que intervir sobre ele reduz a incidência de demência. Perda visual não corrigida é fator de risco reconhecido; disso não decorre que a cirurgia de catarata tenha demonstrado, em ensaio clínico, reduzir incidência de demência. Sono fragmentado associa-se a piores desfechos cognitivos; disso não decorre que tratar a insônia com essa finalidade específica esteja sustentado. Ausência de recomendação não é orientação para não tratar: essas condições têm indicações próprias, sólidas e independentes do desfecho cognitivo.

45% no mundo, 59,5% no Brasil

A OMS adota a estimativa da Lancet Commission de 2024, segundo a qual até 45% do risco populacional de demência é atribuível a 14 fatores modificáveis. Para o leitor brasileiro, esse número subestima o cenário local.

Suemoto e colaboradores (2025) calcularam a fração atribuível populacional (FAP) desses mesmos 14 fatores a partir da segunda onda do ELSI-Brasil, com 9.949 participantes de 50 anos ou mais, amostra de representatividade nacional. A FAP total foi de 59,5% (IC 95% = 58,5–60,5). Os três fatores de maior contribuição foram baixa escolaridade (9,5%), perda visual não tratada (9,2%) e depressão na meia-idade (6,3%). As análises estratificadas por sexo, raça e macrorregião evidenciaram desigualdades na distribuição desse risco dentro do país.

Duas leituras se impõem. A primeira é epidemiológica. A FAP é uma medida contrafactual de população: estima quantos casos deixariam de ocorrer caso a exposição fosse eliminada da população, assumindo causalidade e utilizando riscos relativos derivados de outras coortes. Não corresponde à redução de risco que um paciente específico obtém ao modificar um hábito. Apresentar 59,5% como promessa individual é erro de interpretação, e é um erro que a devolutiva de um laudo pode consolidar por anos.

A segunda leitura é clínica. Dos três maiores contribuintes no Brasil, dois — escolaridade e acesso a tratamento oftalmológico — são determinantes estruturais, e não alvos de mudança comportamental no consultório. O terceiro, depressão na meia-idade, está no alcance direto da psicologia. Isso reposiciona o papel do neuropsicólogo: parte do que fazemos é encaminhar e documentar, não apenas orientar.

A intervenção multidomínio deixou de ser hipótese de pesquisa

A recomendação com melhor sustentação global não é um fator isolado, mas a combinação simultânea de três ou mais alvos, ajustada ao perfil de risco, aos recursos e à cultura da pessoa. A base empírica vem do ensaio finlandês FINGER e, mais recentemente, do US POINTER.

O US POINTER randomizou 2.111 adultos de 60 a 79 anos com risco elevado, em cinco centros norte-americanos, para duas versões de intervenção multidomínio ao longo de dois anos: uma estruturada, com encontros frequentes em grupo, programa de exercícios em equipamentos comunitários, prescrição alimentar modelada na dieta MIND, treino cognitivo computadorizado e monitoramento cardiometabólico regular; e uma autoguiada, com menos suporte e menor cobrança de adesão. Os dois grupos apresentaram melhora em cognição global, com vantagem para o braço estruturado.

O desenho impõe cautelas que convém repassar ao paciente. Não houve grupo sem intervenção — o braço autoguiado também recebeu conteúdo. O estudo não teve poder estatístico para desfechos de incidência de demência ou de comprometimento cognitivo. Os participantes conheciam sua alocação. E a durabilidade do efeito além de dois anos permanece desconhecida. O que o ensaio sustenta é que programas multidomínio aplicáveis em contexto comunitário produzem ganho cognitivo mensurável em população de risco, não que previnam demência.

O que as diretrizes não sustentam

Três posições merecem destaque porque contrariam práticas frequentes.

Suplementação sem deficiência documentada recebe recomendação contrária. Vitaminas do complexo B, vitamina E, ácidos graxos ômega-3 e polivitamínicos com minerais não devem ser usados com a finalidade de reduzir risco de declínio cognitivo ou demência na ausência de deficiência diagnosticada, porque não há evidência de benefício que compense efeitos adversos inesperados. Deficiências documentadas, evidentemente, seguem suas próprias indicações de tratamento.

A terapia hormonal da menopausa não é recomendada com a finalidade de reduzir risco de demência em mulheres de 65 anos ou mais. A indicação para sintomas vasomotores segue critérios próprios, e não deve ser apresentada à paciente como medida de proteção cognitiva.

O treino cognitivo formal pode ser oferecido a idosos com cognição normal ou comprometimento cognitivo leve, e a estimulação cognitiva ampla pode ser encorajada em adultos, mas a certeza da evidência nesse domínio permanece baixa a muito baixa. Isso tem consequência direta sobre como conversamos a respeito de aplicativos de treino: o ganho tende a se concentrar nas tarefas praticadas, e a transferência para funcionamento cotidiano é limitada. Quanto ao álcool, nenhuma quantidade é recomendada com justificativa de benefício à saúde cerebral.

Implicações para a prática neuropsicológica

A avaliação já coleta o mapa de risco. Uma anamnese neuropsicológica competente registra pressão arterial, diabetes, perfil lipídico, audição, visão, sono, uso de álcool e tabaco, atividade física, escolaridade e participação social. Esses dados costumam ficar dispersos na seção de história clínica. Organizá-los explicitamente como mapa de fatores modificáveis, com o que está controlado e o que não está, converte informação já disponível em uma seção acionável do laudo, sem trabalho adicional de coleta.

Função sensorial é, antes de tudo, um problema de medida. Perda auditiva ou visual não corrigida degrada a validade de listas de aprendizagem verbal, de span de dígitos e de tarefas de substituição de símbolos, produzindo escores que confundem déficit sensorial com déficit cognitivo. Verificar e registrar o estado sensorial antes da testagem, adaptar a aplicação ou adiar o exame quando necessário, protege simultaneamente o escore e o paciente. [LINK INTERNO: post sobre validade dos escores em idosos com perda sensorial]

A seção de recomendações comporta especificidade. Encaminhamentos nominais — avaliação audiológica, avaliação oftalmológica, investigação de apneia obstrutiva do sono diante de ronco e sonolência diurna, acompanhamento cardiológico ou endocrinológico, atividade física com supervisão profissional — são mais úteis e mais defensáveis do que a fórmula genérica de manter hábitos saudáveis. Prescrição de dieta, de esquema de exercício ou de medicação está fora do escopo do psicólogo; a indicação de encaminhamento, não.

Depressão na meia-idade é o fator de maior alcance direto. É o terceiro maior contribuinte da FAP brasileira e está integralmente dentro da competência da psicologia clínica. Quando há tratamento farmacológico em curso, a carga anticolinérgica do esquema merece atenção, porque afeta desempenho cognitivo e pode contaminar tanto o quadro clínico quanto a própria avaliação.

A escolha das palavras no laudo tem consequência. Reduzir probabilidade e retardar aparecimento são afirmações que a evidência sustenta. Prevenir demência, não. Pacientes e familiares leem laudos literalmente e por muito tempo; uma frase superestimada se converte em promessa, e a promessa se converte em frustração ou em culpa quando o quadro evolui.

O intervalo de reavaliação faz parte da intervenção. Programar a reavaliação em 12 a 24 meses, com os mesmos instrumentos e o mesmo mapa de fatores, transforma orientação em comportamento monitorado e permite documentar mudança real, em vez de intenção declarada. Para pacientes com comprometimento cognitivo leve, as diretrizes mantêm recomendações de atividade física, estimulação e treino cognitivo e participação social, o que sustenta uma orientação pós-diagnóstica estruturada em lugar do retorno anual sem plano. [LINK INTERNO: Especialização em Neuropsicologia Clínica do IBNeuro]

Limitações e cuidados interpretativos

Boa parte das recomendações da segunda edição é condicional e repousa sobre certeza de evidência baixa ou muito baixa. Recomendação condicional significa que a decisão depende do contexto, das preferências do paciente e dos recursos disponíveis — o que é compatível com a realidade assistencial brasileira, mas exige que a conversa clínica não converta condicionalidade em imperativo.

A causalidade reversa permanece como limitação central da base observacional. Inatividade física, retraimento social, alteração de sono e sintomas depressivos podem ser manifestações prodrômicas do próprio processo neurodegenerativo, e não apenas causas dele, o que infla associações estimadas em coortes com seguimento curto.

As estimativas de FAP assumem eliminação completa da exposição e utilizam riscos relativos derivados majoritariamente de países de alta renda, ainda que aplicados a prevalências nacionais. A maior parte dos ensaios de intervenção tem dois anos de duração e desfechos cognitivos, não incidência de demência.

Por fim, escolaridade, qualidade do ar e acesso a serviços de saúde são determinantes estruturais. Apresentar o conjunto das recomendações como responsabilidade individual distorce a evidência e produz culpa em pacientes que já chegam preocupados. A parte modificável no consultório é real e vale ser trabalhada; ela não esgota o problema.

Considerações finais

A segunda edição das diretrizes da OMS altera menos o que recomendar do que a firmeza com que cada item pode ser afirmado. Essa calibração — recomendação forte ou condicional, certeza moderada ou muito baixa, fator de risco identificado ou intervenção testada — é exatamente o que separa uma seção de recomendações defensável de uma lista de conselhos. Para o neuropsicólogo, o ganho prático está menos em uma nova conduta e mais na possibilidade de dizer ao paciente, com apoio documental, o que a mudança de hábito pode e o que não pode entregar.

Referências

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Organização Mundial da Saúde. (2026). Risk reduction of cognitive decline and dementia: WHO guidelines, second edition. https://www.who.int/publications/i/item/9789240123557

Suemoto, C. K., Borelli, W. V., Calandri, I. L., Bertola, L., Castilhos, R. M., Caramelli, P., Nitrini, R., Brucki, S. M. D., Laks, J., Mukadam, N., Livingston, G., & Ferri, C. P. (2025). The potential for dementia prevention in Brazil: A population attributable fraction calculation for 14 modifiable risk factors. The Lancet Regional Health – Americas, 49, 101209. https://www.thelancet.com/journals/lanam/article/PIIS2667-193X(25)00219-4/fulltext