A Comissão Lancet de 2024 estima que cerca de 45% dos casos de demência no mundo poderiam ser prevenidos ou adiados pelo controle de 14 fatores de risco modificáveis ao longo da vida. Para quem avalia pacientes no Brasil, esse número é conservador: dados nacionais situam o potencial de prevenção de demência perto de 60%, e isso desloca parte da responsabilidade do consultório de neurologia para a sala de avaliação neuropsicológica.

O tema voltou ao debate público em junho, durante a Brain Week, em Porto Alegre, em mesa que reuniu neurocientistas e geriatras para discutir envelhecimento e manutenção da memória. O ponto de partida foi o relatório da Lancet. O que vale a pena examinar é o que esse relatório significa para a prática clínica brasileira — e por que o dado nacional muda a conversa.

O que mudou da Comissão de 2020 para a de 2024

A Comissão Lancet sobre prevenção, intervenção e cuidado em demência publica relatórios periódicos que sintetizam a evidência sobre fatores de risco modificáveis. Em 2020, a Comissão listava 12 fatores, associados a uma fração potencialmente prevenível de 40% dos casos. A atualização de 2024 acrescentou dois fatores com evidência suficiente: perda visual não tratada e colesterol LDL elevado. Com isso, a lista passou a 14 fatores e a fração estimada subiu para 45%.

Os 14 fatores se distribuem por três etapas da vida. No início da vida, está a baixa escolaridade. Na meia-idade (aproximadamente dos 18 aos 65 anos), concentram-se perda auditiva, LDL elevado, depressão, traumatismo cranioencefálico, sedentarismo, diabetes, tabagismo, hipertensão, obesidade e consumo excessivo de álcool. Na velhice, somam-se isolamento social, poluição do ar, perda visual não tratada e, novamente, depressão e tabagismo. A maior parte dos fatores age na meia-idade — período em que paciente e clínico raramente pensam em risco de demência décadas adiante.

Um aspecto metodológico precisa ficar claro desde já. A estimativa de 45% é uma fração atribuível populacional (FAP): a proporção de casos que, em tese, deixaria de ocorrer se aquele fator fosse eliminado da população. Isoladamente, cada fator responde por algo entre 1% e 7% dos casos. O número agregado de 45% pressupõe a eliminação completa e simultânea de todos eles — um teto teórico, não uma meta alcançável.

Por que o número brasileiro é maior

O potencial de prevenção tende a ser maior em países de baixa e média renda, porque a prevalência dos fatores de risco modificáveis nessas populações é mais alta. Um estudo de 2025 produziu a primeira estimativa nacional para o Brasil usando os 14 fatores da Comissão de 2024. A partir de 9.949 participantes com 50 anos ou mais da segunda onda do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), os autores calcularam uma FAP global de 59,5% (IC 95% = 58,5–60,5).

Os três fatores de maior peso no Brasil foram baixa escolaridade (9,5%), perda visual não tratada (9,2%) e depressão na meia-idade (6,3%). A fração foi um pouco mais alta entre mulheres (61,1%) do que entre homens (58,2%). Vale registrar que Wyllians Borelli, neurologista que participou da mesa da Brain Week em Porto Alegre, é coautor desse estudo — o que aproxima o evento da fonte primária que ele discute.

A ordem dos fatores merece atenção. No agregado mundial, escolaridade, perda auditiva e LDL despontam; no Brasil, a baixa escolaridade ocupa o primeiro lugar com folga, reflexo direto da desigualdade histórica de acesso à educação formal. Essa diferença não é detalhe estatístico: ela indica que a alavanca de prevenção mais potente no país é também a mais estrutural e a menos sob controle do indivíduo.

A baixa escolaridade opera por meio da reserva cognitiva — a capacidade do cérebro de sustentar desempenho funcional apesar de carga patológica. Anos de educação formal, ocupações cognitivamente exigentes e atividade intelectual ao longo da vida elevam essa reserva e adiam a expressão clínica da demência. O segundo achado brasileiro, a perda visual não tratada, costuma passar despercebido na conversa sobre memória, embora figure entre os dois fatores de maior peso no país.

Implicações para a prática clínica

Para o neuropsicólogo, a leitura brasileira desses dados tem consequências concretas na avaliação.

A primeira diz respeito à anamnese. Documentar os fatores de risco modificáveis deixa de ser tarefa exclusiva do médico. Ao avaliar um adulto de meia-idade, registre escolaridade, controle de hipertensão, diabetes, perfil lipídico, tabagismo, consumo de álcool, sedentarismo, história de TCE, perdas sensoriais e sintomas depressivos. Esse mapa de risco compõe o raciocínio clínico tanto quanto os escores cognitivos e orienta a comunicação com o paciente e a equipe.

A segunda envolve a operacionalização da reserva cognitiva. Anos de estudo, sozinhos, são um indicador grosseiro no Brasil, onde a qualidade da escolarização varia muito. Complemente a contagem de anos com indicadores de alfabetização funcional, complexidade ocupacional, hábitos de leitura e bilinguismo. Em quem teve pouca escolaridade, o desempenho em testes normatizados precisa ser interpretado com cuidado quanto a vieses de instrução, e a reserva estimada ajuda a calibrar a expectativa sobre a trajetória cognitiva.

A terceira é o controle de confundidores sensoriais. Perda auditiva e perda visual não tratadas comprometem a validade da testagem — um paciente que não escuta a instrução ou não enxerga o estímulo produz escores que subestimam a cognição real. As mesmas perdas figuram entre os fatores de risco. Verifique e, quando possível, corrija acuidade visual e auditiva antes da avaliação, e registre o estado sensorial no laudo.

A quarta é a depressão na meia-idade, terceiro fator de maior peso no Brasil. Ela acumula dois papéis: é fator de risco para demência e é diagnóstico diferencial, na forma de comprometimento cognitivo associado a quadro depressivo, potencialmente reversível com tratamento. Distinguir o componente depressivo do neurodegenerativo, e reavaliar após estabilização do humor, é parte do trabalho diagnóstico.

O quadro brasileiro também reposiciona a contribuição vascular. Hipertensão, diabetes, obesidade e LDL elevado formam um agrupamento cardiometabólico que alimenta a demência vascular e as formas mistas, frequentes na população idosa. O controle desses fatores na meia-idade é janela de intervenção, não medida tardia.

Especialização em Neuropsicologia Clínica

Limitações e cuidados interpretativos

A FAP, repita-se, é um teto teórico. Ela pressupõe a eliminação completa dos fatores e assume relação causal — mas grande parte da evidência é observacional, sujeita a confundimento residual e a causalidade reversa. Sedentarismo e depressão, por exemplo, podem ser tanto causa quanto manifestação inicial de um processo neurodegenerativo já em curso, o que infla artificialmente seu peso aparente.

Os fatores também são correlacionados entre si. Quem tem baixa escolaridade tende a acumular mais fatores cardiometabólicos e menor acesso a tratamento de perdas sensoriais. As estimativas de FAP ajustam para essa sobreposição, mas não a eliminam; somar os pesos individuais como se fossem independentes superestima o efeito.

Há ainda o que esses números não explicam. Se 45% (ou 60%, no Brasil) dos casos se associam a fatores modificáveis, a maior parte do risco permanece atribuída a idade, genética — incluindo o genótipo APOE — e mecanismos ainda não esclarecidos. A mensagem clínica honesta é de redução e adiamento de risco, não de garantia de prevenção. Comunicar isso a famílias ansiosas exige equilíbrio entre estimular mudanças de estilo de vida e não prometer o que a evidência não sustenta.

Considerações finais

O dado da Lancet é um ponto de partida útil, mas a versão brasileira é mais relevante para quem atende aqui: perto de 60% dos casos de demência no país se associam a fatores modificáveis, com a baixa escolaridade à frente. Para o neuropsicólogo, isso amplia o escopo da avaliação de meia-idade — do registro de risco à operacionalização da reserva cognitiva e ao controle de confundidores sensoriais — e reforça que prevenção e diagnóstico são partes do mesmo trabalho.

 

Referências

Bertola, L., Borelli, W. V., Calandri, I. L., Castilhos, R. M., Caramelli, P., Nitrini, R., Brucki, S. M. D., Laks, J., Mukadam, N., Livingston, G., & Ferri, C. P. (2025). The potential for dementia prevention in Brazil: a population attributable fraction calculation for 14 modifiable risk factors. The Lancet Regional Health – Americas. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2667193X25002194

Livingston, G., Huntley, J., Liu, K. Y., Costafreda, S. G., Selbæk, G., Alladi, S., … Mukadam, N. (2024). Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission. The Lancet, 404(10452), 572–628. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(24)01296-0

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Suemoto, C. K., Mukadam, N., Brucki, S. M. D., et al. (2023). Risk factors for dementia in Brazil: differences by region and race. Alzheimer's & Dementia, 19(5), 1849–1857.

Ministério da Saúde. (2024). Relatório Nacional sobre a Demência: epidemiologia, (re)conhecimento, atenção e cuidado. Brasília: Ministério da Saúde. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/relatorio_nacional_demencia_brasil.pdf

DANILO PEREIRA
Marcado: demencia prevencao