Para muitas mulheres autistas, o caminho até o diagnóstico de autismo passa por um ou mais rótulos errados — e o transtorno de personalidade borderline (TPB) é, hoje, o mais frequente deles. Entender por que esse erro acontece é uma das tarefas mais relevantes na avaliação de autismo em mulheres adultas.
Por que mulheres autistas acabam diagnosticadas com borderline
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) sem deficiência intelectual é diagnosticado mais tarde e com mais dificuldade em mulheres do que em homens, e a jornada diagnóstica costuma incluir diagnósticos equivocados pelo caminho (Lai & Baron-Cohen, 2015). Três fatores explicam a convergência específica com o borderline.
O primeiro é o fenótipo feminino do autismo: comparadas aos homens, mulheres autistas tendem a apresentar maior motivação social, mais capacidade de sustentar conexões convencionais, menos comportamentos repetitivos visíveis e maior carga de sintomas internalizantes — ansiedade, depressão, transtornos alimentares. É um perfil que não corresponde ao estereótipo clínico do autismo construído sobre amostras masculinas e infantis. O segundo é a camuflagem social (do inglês camouflaging ou masking): o esforço sustentado de compensar e ocultar traços autistas para “passar” como neurotípica (Hull et al., 2017). Esse esforço reduz a sensibilidade dos instrumentos de rastreio e, por exaustão cumulativa, produz instabilidade emocional, sensação de inautenticidade e dificuldades de identidade — exatamente os fenômenos que sustentam a impressão de TPB. O terceiro é sistêmico: o TPB é frequentemente fechado em meio a crises, em avaliações breves, e em serviços onde falta familiaridade com a apresentação feminina do autismo.
O resultado é que o TPB figura entre os diagnósticos mais comuns recebidos antes do reconhecimento do autismo e é o erro diagnóstico mais frequentemente relatado por pessoas autistas (Barnicot et al., 2026).
O que a epidemiologia realmente diz
Aqui um dado costuma surpreender. A revisão sistemática com meta-análise de May, Pilkington, Younan e Williams (2021), publicada em Autism Research, triou 1.633 estudos e incluiu 19 (12 com dados agregáveis, 11 deles com alto risco de viés). A prevalência conjunta de TPB em populações com TEA foi de 4% (IC 95%: 0–9%) e de TEA em populações com TPB, de 3% (IC 95%: 1–8%) — ou seja, dentro das estimativas populacionais de cada transtorno isoladamente. Em termos estritamente epidemiológicos, não há evidência robusta de que TEA e TPB co-ocorram acima do esperado pelo acaso.
A leitura clínica disso é importante: o problema central não é uma comorbidade verdadeira inflada, e sim a sobreposição fenotípica que leva à confusão diagnóstica — sobretudo em mulheres. A pergunta deixa de ser “quantos têm os dois” e passa a ser “quantas autistas estão sendo lidas como borderline porque os dois quadros se parecem na superfície”.
Onde TEA e borderline de fato se sobrepõem
A sobreposição é real e tem mais de um plano. A convergência mais bem estabelecida é a desregulação emocional como núcleo transdiagnóstico. Em estudo comparativo de Bemmouna, Lagzouli e Weiner (2023), com 724 participantes, mulheres autistas mostraram vulnerabilidade emocional e taxas de experiências invalidantes semelhantes às do grupo TPB — e os mesmos contribuidores principais para a desregulação apareceram nos dois grupos, sugerindo que o modelo biossocial de Linehan (1993) e intervenções como a DBT podem ser tão pertinentes ao adulto autista quanto ao paciente borderline.
Há ainda outras convergências. Ambos os quadros impactam gravemente o funcionamento interpessoal, ainda que por mecanismos distintos. No Systemizing Quotient-Revised (SQ-R), tanto pessoas com TEA quanto com TPB pontuam acima de controles — no autismo como preferência intrínseca por sistemas; no borderline, possivelmente como estratégia compensatória para a instabilidade emocional. Comportamentos autolesivos e ideação suicida são prevalentes nos dois, e a combinação eleva o risco. E, na população geral, traços autistas (medidos pelo AQ) e traços borderline correlacionam-se positivamente — associação que, em parte das amostras, se atenua ao controlar por ansiedade e depressão atuais, sugerindo nós transdiagnósticos compartilhados.
O que separa os dois quadros
Apesar da superfície comum, um estudo transversal recente encontrou mais diferenças do que semelhanças. Barnicot et al. (2026), comparando 51 mulheres/pessoas designadas do sexo feminino ao nascer com diagnóstico de autismo e 51 com TPB (cada grupo com poucos traços do quadro comparador), identificaram dois ancoradores diagnósticos com tamanhos de efeito grandes. A disrupção de identidade foi a maior diferença a favor do TPB (d = −1,36; IC 95%: −1,79 a −0,92), ao lado de reatividade emocional, sensibilidade à rejeição e sofrimento ao ficar só. Já a atipia de processamento sensorial foi a maior diferença a favor do autismo, seguida de cognição social, preferência por invariância, comportamento motor repetitivo e camuflagem social.
O núcleo relacional também separa. No TPB, o medo do abandono e a oscilação entre idealização e desvalorização são definidores — e não emergem como característicos do autismo. Inversamente, interesses restritos, insistência na invariância e atipia sensorial são marcas do TEA, ausentes do quadro borderline. A desregulação emocional, embora comum aos dois, tem gatilhos distintos: no autismo, os meltdowns e shutdowns seguem sobrecarga sensorial ou cognitiva e cedem à redução de demanda; no borderline, a reatividade é predominantemente interpessoal, disparada por temas de rejeição e abandono.
Por fim, a mentalização tem perfis diferentes, não apenas “mais ou menos”. No autismo há um déficit cognitivo basal de teoria da mente, especialmente em seu componente cognitivo; no TPB descreve-se antes um padrão de overmentalizing instável e estado-dependente — atribuições mentais hipertrofiadas sob hipersensibilidade interpessoal. Coerentemente, no Empathy Quotient, os grupos com autismo pontuam mais baixo que controles, enquanto o grupo TPB não difere deles (Dudas et al., 2017).
Quadro-resumo dos vetores diferenciais
| Domínio | A favor de TEA | A favor de TPB |
|---|---|---|
| Trajetória | Sinais precoces e estáveis desde a primeira infância | Emergência na adolescência/início da vida adulta, muitas vezes após adversidade |
| Processamento sensorial | Atipia marcada (maior diferença vs. TPB) | Em geral preservado |
| Identidade | Disrupção possível, secundária à camuflagem; menos central | Disrupção nuclear (maior diferença vs. TEA) |
| Medo do abandono | Não característico | Central, com esforços para evitá-lo |
| Interesses e rotinas | Interesses restritos, insistência na invariância, repetição motora | Não característico |
| Gatilho da desregulação | Sensorial/sobrecarga; meltdown, shutdown | Interpessoal; reatividade rápida e intensa |
| Mentalização / empatia | Déficit cognitivo basal de ToM; EQ mais baixo que controles | Overmentalizing estado-dependente; EQ não difere de controles |
Como a camuflagem fabrica um “falso borderline”
O mecanismo central merece ser explicitado, porque é o que torna o erro tão sistemático. A camuflagem prolongada cobra um preço: décadas imitando roteiros sociais que não vêm de forma intuitiva geram fadiga crônica, sensação de não saber “quem se é por baixo da máscara” e oscilações emocionais ligadas ao esforço e ao colapso desse esforço. Esse desfecho — instabilidade afetiva, inautenticidade, identidade difusa — é fenotipicamente quase indistinguível dos critérios de TPB para quem não investiga a origem desenvolvimental. A revisão conceitual de McQuaid, Strang e Jack (2024) detalha justamente quais traços, em meninas e mulheres autistas, são mais propensos a ser recategorizados como borderline. Some-se a isso o hábito de fechar o TPB em meio a crises e em avaliações rápidas, e o erro se cristaliza — muitas vezes resistindo a revisão por anos.
Implicações para a avaliação
Algumas decisões mudam o desfecho ao avaliar uma mulher adulta com sofrimento emocional, relações instáveis e suspeita de TPB. Antes de fechar o transtorno de personalidade, conduza uma anamnese de desenvolvimento estruturada, idealmente com informante que conheceu a paciente na infância: a trajetória precoce é o dado que mais frequentemente reposiciona a hipótese. Rastreie ativamente os marcadores de maior peso discriminativo — atipia sensorial e interesses restritos do lado do autismo; e investigue a fonte da disrupção de identidade e da desregulação (sensorial e ligada à demanda, ou interpessoal e ligada ao abandono). Não confie no rastreio isolado: a camuflagem reduz a sensibilidade de instrumentos como o AQ, e, em populações clínicas, esses questionários têm especificidade limitada — quase metade de uma amostra de 38 mulheres com TPB pontuou acima do ponto de corte do AQ (Dudas et al., 2017). Evite decisões diagnósticas rápidas durante crises.
No contexto brasileiro, a avaliação neuropsicológica é o instrumento que operacionaliza esse diferencial, traçando o perfil cognitivo, pragmático, emocional e sensorial com testes cadastrados no SATEPSI, e ajudando a distinguir traços de personalidade de características neurobiológicas do espectro. Mantenha índice de suspeição elevado para autismo mascarado em mulheres com história de múltiplos diagnósticos psiquiátricos prévios. [LINK INTERNO: avaliação neuropsicológica de adultos e diagnóstico tardio de TEA] Para o raciocínio diferencial frente a outros transtornos de personalidade além do borderline, ver também [TEA e transtornos de personalidade: o diferencial no adulto].
Limitações e cuidados interpretativos
Três cautelas. Primeiro, a base de evidência é dominada por amostras clínicas pequenas e com alto risco de viés, e muitos achados vêm de autorrelato — inclusive os tamanhos de efeito de Barnicot et al. (2026), obtidos em desenho transversal com grupos pequenos e selecionados. São pistas robustas, não provas definitivas. Segundo, “erro diagnóstico” não é o único cenário: a comorbidade genuína existe, e a combinação TEA+TPB agrava risco; o objetivo não é trocar um rótulo por outro, mas evitar tanto o falso-positivo de TPB quanto o overshadowing, em que um rótulo precoce de personalidade impede que o autismo subjacente seja sequer cogitado. Terceiro, vale lembrar o “problema da dupla empatia” (Milton, 2012): parte da dificuldade interpessoal atribuída ao autista é, na verdade, uma falha bidirecional de reciprocidade entre modos diferentes de processar o mundo — o que recomenda cautela ao interpretar a “leitura social” como déficit unilateral.
Considerações finais
Numa leitura dimensional, faz sentido pensar TEA e TPB como redes sintomáticas parcialmente sobrepostas: nós compartilhados de alta centralidade — desregulação emocional, alexitimia, dificuldades pragmáticas — e nós distintivos com peso etiológico diferente — atipia sensorial e interesses restritos de um lado; medo do abandono, disrupção de identidade e oscilação idealização-desvalorização do outro. Para a mulher adulta com história de muitos diagnósticos e camuflagem prolongada, a pergunta clínica relevante deixa de ser “qual diagnóstico?” e passa a ser “qual a configuração dimensional, qual a trajetória desde a infância e quais nós sustentam o sofrimento atual?”. Deixar o autismo explicitamente na mesa, antes de assinar um transtorno de personalidade, é o que separa uma avaliação cuidadosa de mais um capítulo numa longa história de rótulos errados.
O aprofundamento desse raciocínio diferencial é parte central da formação clínica em neuropsicologia. Especialização em Neuropsicologia Clínica do IBNeuro
Referências
- American Psychiatric Association. (2023). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR (5ª ed., texto revisado). Artmed.
- Barnicot, K., Thompson, E., Turner, S., Mandy, W., McCabe, R., Stark, E., & Parker, J. (2026). Overlapping and differentiating clinical features of autism and borderline personality disorder in women and people assigned female at birth: A cross-sectional study. Autism, 30(5), 1305–1316. https://doi.org/10.1177/13623613261431309
- Bemmouna, D., Lagzouli, A., & Weiner, L. (2023). The biosocial correlates and predictors of emotion dysregulation in autistic adults compared to borderline personality disorder and nonclinical controls. Molecular Autism, 14, Artigo 47.
- Dell’Osso, L., et al. (2023). Comorbidity and overlaps between autism spectrum and borderline personality disorder: State of the art. Brain Sciences, 13(6), 862. https://doi.org/10.3390/brainsci13060862
- Dudas, R. B., Lovejoy, C., Cassidy, S., Allison, C., Smith, P., & Baron-Cohen, S. (2017). The overlap between autistic spectrum conditions and borderline personality disorder. PLOS ONE, 12(9), e0184447. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0184447
- Hull, L., Petrides, K. V., Allison, C., Smith, P., Baron-Cohen, S., Lai, M.-C., & Mandy, W. (2017). “Putting on my best normal”: Social camouflaging in adults with autism spectrum conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders, 47(8), 2519–2534.
- Lai, M.-C., & Baron-Cohen, S. (2015). Identifying the lost generation of adults with autism spectrum conditions. The Lancet Psychiatry, 2(11), 1013–1027. https://doi.org/10.1016/S2215-0366(15)00277-1
- Linehan, M. M. (1993). Cognitive-behavioral treatment of borderline personality disorder. Guilford Press.
- May, T., Pilkington, P. D., Younan, R., & Williams, K. (2021). Overlap of autism spectrum disorder and borderline personality disorder: A systematic review and meta-analysis. Autism Research, 14(12), 2688–2710. https://doi.org/10.1002/aur.2619
- McQuaid, G. A., Strang, J. F., & Jack, A. (2024). Borderline personality as a factor in late, missed, and mis-diagnosis in autistic girls and women: A conceptual analysis. Autism in Adulthood, 6(4), 401–427. https://doi.org/10.1089/aut.2023.0034
- Milton, D. E. M. (2012). On the ontological status of autism: The ‘double empathy problem’. Disability & Society, 27(6), 883–887. https://doi.org/10.1080/09687599.2012.710008
