Como as amizades podem ter sido afetadas pela pandemia

Por: Lara Reis

 

Após deliciar-me em um longo “papo” com uma amiga que não vejo há anos, percebi ter com ela uma ligação que há tempos não sentia com os meus amigos próximos.

Me peguei pensando:  O que mudou? Porque mudamos? Sim, algo mudou e sinto muita falta do que perdemos.

Respeitando o Dunbar Number1 onde o número de amigos mais íntimos são cinco, explorei algumas conversas e frases mais frequentes, entre os meus cinco amigos.

Surgiram temas tais como sobre o tempo ou sobre cuidados que permeiam frases como: “se cuida” ou “é assim mesmo”.

Conversas usuais de elevador, mas e com os meus amigos? Também me chamaram atenção as frases “como você não viu o que te mandei”, “eu te liguei e você não retornou”.

Percebi que estamos flanando na superfície, implorando por nos conectarmos novamente. Não só isso. Estamos desconfortáveis, estamos ressentidos.

A intimidade das trocas pareceu haver perdido para a distância e fazer parte de um “pisar em ovos”. A vivacidade, o “colorido” havia ido embora?

O meu alarme biológico disparou e segundo Lydia Denworth, em seu artigo sobre o isolamento, a solidão dispara mecanismos neurais equivalentes a sentir fome.

Estamos subnutrindo nossas amizades e, como se não bastasse isso, estamos bravos uns com os outros. Isso colocou-me a pensar em como a Pandemia pode ter afetado nossas amizades.

Sim, a realidade é essa:  Estamos fisicamente distantes, alertas a uma realidade de iminência de risco de perda e sentimos que os outros não estão lá para nós.

O que me chamou a atenção de tudo isso é que o modo como cada um decidiu levar suas vidas tornou-se quase que um ressentimento em relação ao outro. Porque nos desconectamos? Ou do que estamos querendo nos desconectar?

Minha conversa com uma amiga que não via há anos era uma atualização do cotidiano, mas admitirmos que não fazemos parte de uma rotina ou uma frequência na vida uma da outra, nos tornou espontâneas e conseguimos nos conectar sem nos basear no esperado para cada uma.

Será que a distância física pode desencadear um padrão ou modo de enfretamento, no qual nos desligamos afetivamente dos amigos, já que não fazemos parte do modo de vida que cada uma adotou nessa pandemia?

Fica muito claro, principalmente no Brasil, que as medidas “adotadas” passaram a ser uma responsabilidade individual e aí o choque entre amigos. A diferença entre o que chamo de “quantidade de medo” com a qual cada um aguenta conviver, o que cada um faz do medo ao qual consegue suportar, nos coloca a fazer escolhas e elas podem ser muito diferentes entre nós, daquilo que esperávamos um do outro e até de nós mesmos.

Muitas vezes, embora com compreensão, nos ressentimos e nos afastamos. “Pisamos em ovos”, percebendo o ressentimento um do outro com “estranheza”, mas não falamos sobre isso e vamos assim aumentando a distância entre nós e nos sentido cada vez mais sozinhos, desconectados.

Os nossos sentimentos mais positivos em relação aos amigos têm sido “desbotados” pelo desconforto de não fazer parte do cotidiano. Por como nos sentimos quando fazem algo diferente de nós ou nos sentimos atacados por observações tão diferentes.

Ora, mas isso não foi sempre assim? As diferenças entre amigos sempre existiram. Fazemos coisas que são muito diferentes, temos opiniões divergentes, às vezes atacamos convicções, às vezes somo atacados em convicções, e assim sempre nos entendemos.

Mas, estar próximo, sem a quantidade de alerta e perdas era um facilitador.

Será que vamos um dia entender que o rompimento foi com a presença física e não com o “contar uns com os outros”?

Sim. Temos muita saudade, nos amamos, mas estamos ressentidos.

Resolvi admitir isso para alguns amigos... estamos num novo processo de conexão, estamos colorindo novamente em um, ainda discreto, banquete.

 

Baseado nos artigos de Lydia Denworth, escritora e editora colaboradora da Scientific American e autora de Friendship: The Evolution, Biology e Extraordinary Power of Life's Fundamental Bond  (2020).

1 Dunbar Number é proposto por Robin Dunbar, antropólogo e psicólogo da Universidade de Oxford, em pesquisa sobre o número de pessoas que uma pessoa comum poderia ter em seu grupo social usando uma razão entre o volume neocortical e o volume total do cérebro.