Pacientes com AVC apresentam, com frequência, necessidades paliativas — controle de sintomas, comunicação sobre prognóstico, decisões sobre limites terapêuticos — que se manifestam já na fase aguda, e não apenas no fim da vida. Ainda assim, o treinamento formal em cuidados paliativos em neurologia durante a residência médica segue desigual e, na maior parte dos programas brasileiros, ausente. Um estudo retrospectivo conduzido na Faculdade de Medicina de Botucatu (UNESP), publicado em 2026 no American Journal of Hospice & Palliative Medicine — do qual o Dr. Danilo Assis Pereira, fundador do IBNeuro, é coautor —, avaliou o que muda nos desfechos clínicos do AVC quando essa lacuna é endereçada. Os achados merecem leitura cuidadosa: há um sinal real, mas a interpretação exige cautela.

A lacuna educacional no Brasil: o que mostra o cenário prévio

Antes de discutir o estudo de 2026, vale registrar o ponto de partida institucional. Em 2025, o mesmo grupo de Botucatu publicou nos Arquivos de Neuro-Psiquiatria um needs assessment sobre o ensino de cuidados paliativos nos programas brasileiros de residência em neurologia (Tramonte et al., 2025). O retrato é desconfortável: apenas um docente de neurologia entre os programas avaliados tinha formação formal em cuidados paliativos, 37% dos coordenadores declararam-se insatisfeitos com a qualidade do ensino oferecido, e as barreiras citadas com mais frequência foram a indisponibilidade de docentes capacitados (72,4%), a falta de expertise institucional em cuidados paliativos (69%) e a insuficiência de tempo curricular (58,6%).

Esse cenário é particularmente relevante porque, em maio de 2024, o Ministério da Saúde publicou a Portaria GM/MS nº 3.681, instituindo a Política Nacional de Cuidados Paliativos (PNCP) no âmbito do SUS (Brasil, 2024). A política prevê expressamente o estímulo à formação e à educação continuada de profissionais envolvidos em cuidados paliativos, e organiza a oferta em todos os pontos da Rede de Atenção à Saúde — o que coloca a residência médica entre os espaços naturais de implementação. Em outras palavras: existe agora um arcabouço regulatório que pede formação que, segundo o levantamento de 2025, simplesmente não está sendo feita de modo sistemático nos programas de neurologia.

É contra esse pano de fundo que o estudo de Carvalho et al. (2026) testa uma pergunta concreta: se um programa específico de residência implementar treinamento estruturado em cuidados paliativos, os desfechos dos pacientes mudam?

 

Curso de Especialização em Neuropsicologia Clínica (2026)

O que o estudo investigou

Trata-se de um estudo caso-controle retrospectivo com pareamento, conduzido em uma unidade de AVC de um hospital quaternário brasileiro. Em 2019, o programa de residência em neurologia da instituição integrou um treinamento estruturado em cuidados paliativos ao primeiro ano da residência, totalizando 180 horas: 140 horas de prática supervisionada na unidade de cuidados paliativos do próprio hospital (predominantemente com pacientes oncológicos), 20 horas de aulas teóricas sobre princípios gerais e neuropaliativos, controle de sintomas, comunicação de más notícias, considerações éticas em fim de vida e aspectos psicossociais e espirituais, além de 10 horas de discussão de casos e 10 horas de simulação focada em conversas sobre objetivos de cuidado.

Os autores compararam dois períodos: março/2018–março/2019 (antes do treinamento) e março/2020–março/2021 (após o treinamento). O ano de transição (2019) foi excluído. Foram incluídos pacientes adultos com AVC isquêmico ou hemorrágico admitidos à unidade de AVC, manejados por residentes do segundo ano sob supervisão de neurologistas. Para minimizar confundimento, os pacientes foram pareados com base em idade, sexo, gravidade do AVC (NIHSS na admissão), funcionalidade pré-AVC (mRS) e admissão na fase aguda. A amostra final contou com 270 pacientes (141 do período pré-treinamento e 129 do pós-treinamento).

Os desfechos primários foram o tempo total de internação hospitalar e o tempo de permanência na unidade de AVC. Os desfechos secundários cobriram práticas específicas de cuidado paliativo: uso de opióide, suspensão de hidratação e nutrição clinicamente assistidas (SNH), realização e documentação de reuniões familiares e solicitação de parecer da equipe especializada em cuidados paliativos.

O que os dados mostram — e o que não mostram

O achado mais consistente do estudo foi a redução do tempo de internação. Pacientes manejados por residentes que haviam passado pelo treinamento em cuidados paliativos tiveram mediana de internação hospitalar total de 6 dias, contra 8 dias no grupo pré-treinamento (diferença de –2 dias; IC 95%: –3,0 a –1,0; p = 0,002). O tempo na unidade de AVC também foi menor (mediana 6 vs. 7 dias; p < 0,001). No subgrupo com desfecho desfavorável (mRS 4–6) — exatamente aquele em que práticas paliativas tendem a ser mais relevantes —, a redução foi ainda mais marcada, com diminuição de cerca de 3,6 dias na permanência na unidade de AVC após ajuste multivariado.

Importante: a mortalidade hospitalar não diferiu entre os grupos (5,0% vs. 5,4%; p = 0,653). Ou seja, a redução do tempo de internação não foi às custas de óbitos precoces.

O que torna o estudo interessante, no entanto, são os achados negativos. Apesar do treinamento de 180 horas, não houve diferença significativa entre os grupos em três indicadores que se esperaria sensíveis ao ensino paliativo:

  • Uso de opioides: 5,0% no grupo sem treinamento vs. 9,3% no grupo com treinamento (p = 0,164).
  • Suspensão de hidratação e nutrição clinicamente assistidas: 2,1% vs. 1,6% (p = 0,735).
  • Parecer de equipe especializada em cuidados paliativos: 4,3% vs. 2,3% (p = 0,374).

Houve uma tendência — sem significância estatística — para mais reuniões familiares conduzidas pelos próprios residentes treinados (6,2% vs. 2,8%; OR 2,26; p = 0,180), o que é direcionalmente consistente com a hipótese de que o treinamento melhora habilidades de comunicação, mas o tamanho amostral não permite afirmação.

Houve também um achado inesperado: maior uso de anti-hipertensivos endovenosos na admissão no grupo treinado (26% vs. 13%; OR 2,35; p = 0,012). Os autores reconhecem que não há explicação clara para essa diferença, e ela merece replicação antes de qualquer interpretação substantiva.

Como interpretar a discrepância entre tempo de internação e práticas documentadas

O contraste entre menor tempo de internação e práticas paliativas específicas inalteradas é o ponto mais provocativo do trabalho. Há pelo menos três leituras possíveis, e os próprios autores discutem isso com cautela.

A primeira leitura é a de que o efeito do treinamento seria difuso, atuando sobre habilidades transversais — comunicação com famílias, reconhecimento precoce de sintomas, coordenação de transições de cuidado, tomada de decisão compartilhada — que não se traduzem em itens discretos no prontuário, mas que aceleram a trajetória do paciente em direção a uma alta planejada ou a um destino apropriado. Essa interpretação é compatível com a literatura sobre primary palliative care, segundo a qual a integração de competências paliativas básicas ao trabalho do clínico de linha de frente reduz a necessidade de consulta especializada para casos rotineiros (Creutzfeldt, Robinson & Holloway, 2016).

A segunda leitura — não excludente — é a de que o pós-período coincide com a pandemia de COVID-19, que mudou substancialmente os fluxos hospitalares, as políticas de presença familiar, os limiares para alta e a ocupação de leitos. Os próprios autores realizaram análises de sensibilidade excluindo os picos locais de infecção e ajustando pela ocupação hospitalar mensal, sem alteração dos achados principais — o que reduz, mas não elimina, esse confundimento. A leitura mais honesta é que parte da redução de tempo provavelmente reflete o treinamento, parte reflete o contexto pandêmico, e os dados disponíveis não permitem isolar precisamente as contribuições.

A terceira leitura aponta para uma limitação do desfecho documentado como proxy de cuidado paliativo prestado. Reunião familiar realizada e não anotada, discussão de objetivos de cuidado que mudou a conduta sem necessariamente gerar um pedido de parecer formal, manejo de sintomas refinado a partir da formação — tudo isso pode ocorrer sem deixar rastro nos campos do prontuário que o estudo conseguiu auditar. Não é um problema metodológico exclusivo deste trabalho, mas é um lembrete de que a auditoria retrospectiva tem teto.

Implicações para a prática clínica

Para o clínico que atende pacientes com AVC e outras condições neurológicas graves, o estudo sustenta três pontos práticos.

Primeiro, competências paliativas primárias pertencem ao manejo neurológico de rotina, não a uma fase tardia da doença. O AVC ilustra isso bem: a fase aguda concentra decisões de alto impacto — limites terapêuticos, manejo de via aérea, comunicação de prognóstico — que precisam ser tomadas antes que o paciente seja transferido para outra equipe ou outro nível assistencial. Esperar pelo parecer da equipe especializada nem sempre é viável, e a evidência do estudo sugere que residentes treinados conseguem conduzir muitas dessas conversas autonomamente.

Segundo, para a equipe interdisciplinar — incluindo psicólogos e neuropsicólogos que atuam em contextos hospitalares e ambulatoriais com pacientes neurológicos —, o trabalho realça áreas de contribuição que não aparecem explicitamente no estudo, mas são previsíveis a partir dele. Avaliação de capacidade decisória em pacientes com AVC e comprometimento cognitivo agudo, comunicação sobre prognóstico cognitivo em demências e doenças neurodegenerativas, suporte às famílias na compreensão da trajetória cognitiva pós-evento, e participação em discussões sobre objetivos de cuidado em pacientes com dependência funcional grave — todos esses são pontos em que a contribuição neuropsicológica é relevante e, no Brasil, ainda subutilizada.

Terceiro, para coordenadores de programas e gestores de educação médica, o estudo é uma prova de viabilidade. Um programa de 180 horas integrado ao primeiro ano da residência é factível em uma instituição pública brasileira de grande porte, e está associado a desfechos clínicos mensuráveis. Combinado ao arcabouço da PNCP de 2024 e ao diagnóstico do needs assessment de 2025, o achado dá lastro a propostas curriculares concretas — não apenas a debates conceituais sobre a importância de cuidados paliativos.

Limitações e cuidados interpretativos

O próprio desenho do estudo impõe limites importantes à generalização. Trata-se de um estudo unicêntrico, em uma instituição com equipe própria de cuidados paliativos e residência consolidada — condições que não se reproduzem na maioria dos hospitais públicos brasileiros. A natureza retrospectiva impede inferência causal: não se trata de um ensaio clínico, e variáveis não medidas podem ter contribuído para os achados.

O confundimento pandêmico permanece o ponto mais delicado. O período pós-intervenção sobrepõe-se à pandemia de COVID-19, durante a qual praticamente toda métrica hospitalar — ocupação, fluxo de altas, presença familiar, limiares para internação prolongada — mudou. As análises de sensibilidade dos autores atenuam, mas não eliminam, essa preocupação. Replicação prospectiva, multicêntrica e fora do período pandêmico será necessária antes de tratar a redução de tempo de internação como efeito estável do treinamento.

A curta duração do programa (um ano de residência) também limita o que se pode esperar em termos de práticas paliativas mais complexas — manejo de delirium em fim de vida, sedação paliativa, decisões sobre suspensão de suporte vital prolongado. A ausência de diferença nessas práticas pode refletir tanto um limite intrínseco da auditoria retrospectiva quanto uma necessidade real de aprofundamento curricular.

Considerações finais

O estudo de Carvalho et al. (2026) entrega um sinal positivo e modesto: treinamento estruturado em cuidados paliativos durante a residência em neurologia está associado a menor tempo de internação no AVC, especialmente nos casos com desfecho funcional desfavorável, sem aumento de mortalidade. Ao mesmo tempo, entrega uma evidência humilde: práticas paliativas específicas e documentadas no prontuário não mudaram de forma significativa. A leitura mais útil dessa combinação é que educação em cuidados paliativos primários parece influenciar processos de cuidado mais do que indicadores discretos — o que reforça a importância do desfecho clínico amplo, mas também aponta para o limite do que auditorias retrospectivas conseguem capturar.

Para a comunidade brasileira de profissionais de saúde mental e neurociências, o trabalho tem duas leituras complementares. É evidência empírica de que integração precoce de cuidados paliativos ao treinamento neurológico é viável e potencialmente benéfica — alinhada à direção da PNCP de 2024 e ao diagnóstico do needs assessment de 2025. E é também um convite à participação interdisciplinar: cuidados paliativos em neurologia não são monopólio médico, e a contribuição da neuropsicologia em capacidade decisória, comunicação cognitiva e suporte familiar permanece um campo aberto, com demanda crescente e oferta ainda insuficiente.

 

Curso de Especialização em Neuropsicologia Clínica (2026)

Referências

Brasil. Ministério da Saúde. (2024). Portaria GM/MS nº 3.681, de 7 de maio de 2024. Institui a Política Nacional de Cuidados Paliativos – PNCP no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Diário Oficial da União. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2024/prt3681_22_05_2024.html

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Creutzfeldt, C. J., Kluger, B., Kelly, A. G., Lemmon, M., Hwang, D. Y., Galifianakis, N. B., Carver, A. C., Katz, M., Curtis, J. R., & Holloway, R. G. (2018). Neuropalliative care: Priorities to move the field forward. Neurology, 91(5), 217–226. https://doi.org/10.1212/WNL.0000000000005916

Creutzfeldt, C. J., Robinson, M. T., & Holloway, R. G. (2016). Neurologists as primary palliative care providers: Communication and practice approaches. Neurology: Clinical Practice, 6(1), 40–48. https://doi.org/10.1212/CPJ.0000000000000213

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Tramonte, M. S., Carvalho, A. C. P., Pinheiro, M. S., Lopes, C. G., Neves, L. O., & Lopes, L. C. G. (2025). A needs assessment of palliative care education in neurology residency programs in Brazil. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, 83(8), s00451811232. https://doi.org/10.1055/s-0045-1811232