Um paciente com 62 anos, hipertenso, encaminhado para avaliação neuropsicológica após queixa de lentificação no trabalho, apresenta desempenho preservado em testes de memória episódica e linguagem, mas obtém escore reduzido no Symbol Digit Modalities Test (SDMT) e tempo elevado no Trail Making Test parte B (TMT-B). A ressonância estrutural mostra córtex relativamente íntegro, mas hiperintensidades difusas em substância branca periventricular. Como interpretar esse perfil sem cair em rótulos lobares genéricos?

A neuropsicologia contemporânea responde a esse tipo de pergunta com um vocabulário diferente daquele consolidado há vinte anos. Os correlatos neurais dos testes neuropsicológicos, mapeados pela literatura de neuroimagem multimodal publicada entre 2020 e 2026 (pós pandemia), já não se restringem a regiões corticais isoladas — apontam para redes distribuídas, tratos de substância branca específicos e mecanismos compensatórios que reorganizam a interpretação clínica. Este post sintetiza o que mudou e o que isso significa para a prática.

Do córtex eloquente às redes: a virada conceitual

Durante grande parte do século XX, a interpretação dos testes neuropsicológicos operou sob lógica lobar: o Wisconsin Card Sorting Test (WCST) media "função frontal"; a Figura Complexa de Rey-Osterrieth (ROCFT), "função parietal direita"; a fluência verbal semântica, "lobo temporal esquerdo". Esse mapeamento, herdeiro da neurologia clássica de lesão, foi clinicamente útil e psicometricamente produtivo — mas tornou-se progressivamente inadequado conforme métodos como ressonância magnética funcional (fMRI) em estado de tarefa e de repouso, imagem por tensor de difusão (DTI), espectroscopia funcional por infravermelho próximo (fNIRS) e magnetoencefalografia (MEG) revelaram que praticamente todo desempenho cognitivo complexo recruta redes neurais distribuídas e interdependentes.

Três modelos consolidaram essa virada. O modelo P-FIT (Parieto-Frontal Integration Theory of Intelligence) postula que inteligência fluida emerge de uma rede integrada de regiões parietais e pré-frontais. O modelo HAROLD (Hemispheric Asymmetry Reduction in Older Adults) descreve a redução da assimetria hemisférica com o envelhecimento. O modelo CRUNCH (Compensation-Related Utilization of Neural Circuits Hypothesis) propõe que adultos mais velhos recrutam circuitos adicionais para sustentar desempenho diante de eficiência neural reduzida. Em conjunto, esses modelos substituem a pergunta "qual região está afetada?" por uma pergunta mais produtiva: "qual rede está comprometida e como está respondendo?"

Cinco achados que reorganizam a interpretação

1. Inteligência fluida e o modelo P-FIT

O Raciocínio Matricial — componente central da Wechsler Abbreviated Scale of Intelligence (WASI) e índice clássico de inteligência fluida (Gf) — depende de uma rede que articula córtex pré-frontal dorsolateral (CPFDL), córtex rostrolateral e córtex parietal (especialmente o sulco intraparietal). Em estudo MEG com 104 jovens de 8 a 15 anos, Greenwood e colaboradores (2026) demonstraram que oscilações multiespectrais em toda a rede P-FIT, com mediação significativa do giro lingual direito, sustentam o desenvolvimento de Gf na infância e adolescência. Em sentido oposto, Mitchell et al. (2023), trabalhando com a coorte Cam-CAN, mostraram que a redução da responsividade frontoparietal a problemas novos medeia parcialmente o declínio em inteligência fluida ao longo da vida adulta.

A implicação é direta: escore baixo em Raciocínio Matricial não aponta para um "lobo frontal disfuncional" — aponta para perda de eficiência da integração parieto-frontal, cuja causa pode ser microestrutural, vascular, desmielinizante ou degenerativa.

2. Fluência verbal, cerebelo posterior e hipocampo: o switching como forrageamento

O achado conceitualmente mais surpreendente da literatura recente vem de Lundin et al. (2023), publicado em PNAS. Durante tarefa de fluência verbal semântica e fonêmica em fMRI, o hipocampo e o cerebelo posterior (lóbulo VI, Crus I–II) mostraram ativação significativamente maior durante o switching (transição entre patches semânticos, como passar de "animais domésticos" para "animais marinhos") em comparação ao clustering (produção de itens semanticamente relacionados dentro de um patch). Crucialmente, essa atividade aumentava em rampa nos segundos que antecediam a transição, sugerindo papel preditivo desses circuitos na temporização das mudanças de estratégia.

O modelo subjacente é o Marginal Value Theorem do forrageamento ecológico, originalmente formulado para descrever decisões de animais que exploram e exploram patches de recursos em ambientes naturais. A hipótese é que a busca em memória semântica preserva essa arquitetura computacional — e que cerebelo e hipocampo participam ativamente do monitoramento que sinaliza quando um patch está "esgotado" e cabe trocar.

Para a clínica, isso significa que déficits de switching em fluência verbal — frequentemente interpretados como falha executiva frontal — podem refletir disfunção cerebelar ou hipocampal. Em pacientes com síndrome cognitivo-afetiva cerebelar (Schmahmann, 2024) ou com atrofia hipocampal precoce, a leitura clínica precisa contemplar essas possibilidades.

3. SDMT, TMT-B e a primazia da substância branca

O SDMT é talvez o teste mais sensível disponível para velocidade de processamento, especialmente em esclerose múltipla, AVC e envelhecimento. Em estudo com 100 pacientes com esclerose múltipla, Grothe et al. (2022, Frontiers in Neurology) demonstraram que a anisotropia fracional do fascículo longitudinal superior (SLF) — trato que conecta lóbulo parietal superior a regiões frontais médias e superiores — associa-se positivamente ao desempenho no SDMT, e que essa associação persiste mesmo após exclusão de lesões dentro do trato. A integridade conectiva, e não apenas a integridade cortical, prediz a velocidade.

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O paralelo para o TMT-B é igualmente robusto. A revisão sistemática de Tsiakiri et al. (2024, Neurology International) sobre desempenho no TMT em pacientes pós-AVC consolida os tratos frontoparietais — particularmente SLF e projeções colinérgicas laterais — como correlatos neuroanatômicos centrais do set-shifting. Em pacientes com microangiopatia cerebral, Zhao et al. (2025) mostraram que o tempo de execução da versão digital do TMT correlaciona-se com volume de lesões hiperintensas em T2/FLAIR.

Voltando ao paciente do parágrafo de abertura: lentidão isolada no SDMT e TMT-B, na presença de hiperintensidades de substância branca, não é incidental — é fisiopatologicamente coerente. Esses testes funcionam como sentinelas precoces de comprometimento conectivo, frequentemente antes de qualquer atrofia cortical aparente.

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4. Memória operacional: dígitos direta e inversa em redes distintas

Embora os subtestes de Dígitos em Ordem Direta e Inversa do Wechsler Adult Intelligence Scale (WAIS) sejam administrados em sequência e frequentemente reportados em escore composto, eles recrutam redes parcialmente distintas. Bahri et al. (2024, Frontiers in Psychology), em amostra de 252 adultos saudáveis (20–70 anos), confirmaram que Dígitos Direta depende predominantemente da alça fonológica — giro supramarginal esquerdo para armazenamento fonológico, regiões pré-motoras e área de Broca para ensaio subvocal — com baixo recrutamento do CPFDL. Dígitos Inversa, por outro lado, engaja a rede frontoparietal de maneira mais robusta, com ativação bilateral do CPFDL, parietal inferior e regiões temporais, consistente com manipulação ativa da informação e provável apoio em estratégias visuoespaciais.

A separação interpretativa importa: um paciente com Dígitos Direta preservada e Inversa rebaixada apresenta perfil que sugere comprometimento de controle executivo, não de capacidade de armazenamento — distinção que tem implicações diagnósticas e de reabilitação. Muriel Lezak já dizia isto em seu livro Neuropsychological Assessment.

5. HAROLD e CRUNCH: leitura dos padrões compensatórios

Adultos mais velhos frequentemente recrutam o hemisfério direito durante tarefas tradicionalmente lateralizadas à esquerda (fluência fonêmica, dígitos inversos). Estudo recente com fNIRS em idosos com leve comprometimento de fluência semântica (Park et al., 2024, Psychiatry Investigation) mostrou ativação pré-frontal compensatória correlacionada com anomalias estruturais no giro frontal inferior esquerdo — padrão consistente com CRUNCH. Marsolais et al. (2020) documentaram, na mesma direção, redução da integração funcional das redes de produção de fala durante fluência semântica em adultos mais velhos.

O ponto clínico delicado é que o recrutamento bi-hemisférico pode tanto refletir compensação eficaz (preservando desempenho apesar de eficiência reduzida na rede primária) quanto compensação ineficaz (recrutamento sem ganho funcional, sinalizando falência da reserva). A diferenciação exige integração com o perfil global, o contexto clínico e a idade — não pode ser feita olhando para um único escore.

Implicações para a prática clínica

A virada para uma interpretação em redes muda quatro coisas concretas na rotina do neuropsicólogo:

1. Substitua a pergunta "qual lobo está afetado?" pela pergunta "qual rede está comprometida?". Na devolutiva, ao laudo e na discussão com a equipe, formular o achado em termos de redes (frontoparietal de atenção, alça fonológica, rede semântica estendida, P-FIT, redes fronto-estriatais) é mais fiel à evidência atual e mais útil para o encaminhamento clínico. "Disfunção da rede frontoparietal com preservação relativa da rede da memória semântica" comunica mais do que "disfunção frontal".

2. Levante a hipótese de comprometimento conectivo em perfis com lentidão desproporcional. Em pacientes com lentificação significativa no SDMT e no TMT-B, na presença de função cortical aparentemente preservada, a hipótese de comprometimento da substância branca (microangiopatia, esclerose múltipla, sequelas de TCE difuso, COVID longa) deve ser ativa — e justifica solicitação ou revisão de imagem estrutural com atenção específica a hiperintensidades em FLAIR e, quando disponível, DTI.

3. Considere cerebelo e hipocampo em hipóteses sobre fluência verbal alterada. Especialmente quando o déficit aparece preferencialmente em switching (com clustering preservado), o substrato pode envolver disfunção cerebelar posterior ou hipocampal — relevante em quadros como esquizofrenia, doença de Parkinson com comprometimento cognitivo, comprometimento cognitivo leve amnéstico e ataxias cerebelares. A análise qualitativa das produções (não apenas o escore total) é o que viabiliza essa leitura.

4. Use escores derivados como sondas específicas. O escore B−A (ou B/A) do TMT isola o custo de set-shifting controlando velocidade visuomotora basal; os escores de Inibição (Escolha − Leitura) e Flexibilidade (Alternância − Escolha) do Five Digit Test isolam componentes executivos do processamento automático; o escore de Retenção da Figura Complexa de Rey (Evocação/Cópia) diferencia déficit de codificação de problema de consolidação ou recuperação. Esses índices derivados oferecem medidas mais focadas que os escores brutos e fortalecem a hipótese sobre qual componente da rede está em jogo.

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Limitações e cuidados interpretativos

Três cautelas são essenciais para evitar leitura excessiva da literatura de neuroimagem cognitiva.

Primeiro, associações entre desempenho e ativação ou microestrutura não autorizam inferência reversa. Saber que o SDMT depende da integridade do SLF não permite dizer que um escore baixo no SDMT implica lesão do SLF — outros mecanismos (motivação, depressão, fadiga, transtorno do sono, efeito de medicação anticolinérgica) produzem o mesmo desempenho rebaixado. A integração com o exame clínico, a história e outros instrumentos continua soberana.

Segundo, a literatura citada tem heterogeneidade metodológica considerável. Estudos com fMRI, MEG, fNIRS, DTI, morfometria e PET respondem a perguntas distintas, com amostras frequentemente pequenas e características demográficas variadas. Convergência entre métodos é o que confere robustez — achados isolados de um único estudo, mesmo bem desenhado, devem ser tomados como hipóteses, não como mapas definitivos.

Terceiro, populações brasileiras estão sub-representadas na literatura de neuroimagem cognitiva. Variáveis socioeducacionais (escolaridade, alfabetização funcional, bilinguismo, acesso à saúde) modulam o substrato neural dos testes de modo ainda pouco caracterizado em coortes nacionais. Estudos brasileiros recentes — incluindo trabalhos com o Five Digit Test (Cecato, 2024) e com a PD-CRS (Brandão, 2023) — começam a preencher essa lacuna, mas a transposição direta de normas e correlatos internacionais para a prática local exige cuidado.

A PD-CRS foi validada no Brasil pelo neurologista Dr. Pedro Brandão em parceria com a equipe de pesquisadores do IBNeuro. Acesse gratuitamente a escala neste link.

Considerações finais

A interpretação neuropsicológica contemporânea opera na confluência entre psicometria e neurociência de redes. Os testes que usamos rotineiramente — fluência verbal, SDMT, TMT, Figura Complexa de Rey, Cubos, Dígitos, Raciocínio Matricial — não são "testes frontais" ou "testes parietais"; são sondas que avaliam o funcionamento integrado de redes distribuídas, mediadas por substância cinzenta cortical, conectividade de substância branca, estruturas subcorticais e cerebelares. Para o neuropsicólogo, isso não significa abandonar a psicometria — significa enriquecer a leitura dos escores com hipóteses sobre redes, e usar a análise qualitativa de erros e os escores derivados como instrumentos para discriminar componentes específicos do desempenho.


Referências

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Brandão, P.R.d.P., Pereira, D.A., Grippe, T.C., Bispo, D.D.d.C., Maluf, F.B., Yunes, M.P., Nunes Filho, G., Alves, C.H.L., Pagonabarraga, J., Kulisevsky, J., da Costa, A.M.L., Serafim, C.F.d.V., Ferreira, A.C.d.B., Bastos, A.d.M.M., Belchior, A.C.F., de Almeida, B.L.C., de Almeida e Castro, B.M., Matos, M.S., de Matos, R.C., Rios, G.d.A., Carneiro, L.O., da Mota, B.C.C., Castro, L.E.d.R., Rocha, V.L.S., Tavares, M.C.H. and Cardoso, F. (2023), Parkinson's Disease-Cognitive Rating Scale (PD-CRS): Normative Data and Mild Cognitive Impairment Assessment in Brazil. Mov Disord Clin Pract, 10: 452-465. https://doi.org/10.1002/mdc3.13657

Cecato, J. F. (2024). Five Digit Test in neuropsychological assessment of working memory in aged individuals: Normative data. Dementia & Neuropsychologia, 18, e2024-0141.

Greenwood, S. L., Pulliam, H. R., Clarke-Smith, M. N., et al. (2026). Frontoparietal oscillatory dynamics support the development of fluid reasoning in children and adolescents. Imaging Neuroscience, 4, IMAG-a-1133.

Grothe, M., Jochem, K., Strauss, S., et al. (2022). Performance in information processing speed is associated with parietal white matter tract integrity in multiple sclerosis. Frontiers in Neurology, 13, 982964. https://doi.org/10.3389/fneur.2022.982964

Lundin, N. B., Brown, J. W., Johns, B. T., Jones, M. N., Purcell, J. R., Hetrick, W. P., O'Donnell, B. F., & Todd, P. M. (2023). Neural evidence of switch processes during semantic and phonetic foraging in human memory. Proceedings of the National Academy of Sciences, 120(42), e2312462120. https://doi.org/10.1073/pnas.2312462120

Marsolais, Y., Methqal, I., & Joanette, Y. (2020). Marginal neurofunctional vulnerabilities in cognitively healthy aging: Insights into semantic and phonological verbal fluency. Aging, Neuropsychology, and Cognition.

Mitchell, D. J., Mousley, A. L. S., Shafto, M. A., Cam-CAN, & Duncan, J. (2023). Neural contributions to reduced fluid intelligence across the adult lifespan. The Journal of Neuroscience, 43(2), 293–307. https://doi.org/10.1523/JNEUROSCI.0698-22.2022

Park, J. E., et al. (2024). Association of compensatory mechanisms in prefrontal cortex and impaired anatomical correlates in semantic verbal fluency: A functional near-infrared spectroscopy study. Psychiatry Investigation, 21(10), 1156–1167.

Schmahmann, J. D. (2024). The cerebellar cognitive affective syndrome: An update. Neurologic Clinics, 42(1), 225–244.

Tsiakiri, A., Christidi, F., Tsiptsios, D., Vlotinou, P., Kitmeridou, S., Bebeletsi, P., et al. (2024). Processing speed and attentional shift/mental flexibility in patients with stroke: A comprehensive review on the Trail Making Test in stroke studies. Neurology International, 16(1), 210–225.

Zhao, H., et al. (2025). Performance of the digital Trail Making Test in older adults with white matter lesions. Frontiers in Human Neuroscience, 19, 1572971.