Introdução

A adolescência é um período crucial no qual condições neurodesenvolvimentais e psiquiátricas costumam se tornar mais visíveis e complexas. Em adolescentes do sexo feminino, o diagnóstico pode ser particularmente desafiador devido à sobreposição de sintomas e a apresentações específicas de gênero.

Este texto reúne estudos quantitativos (pesquisas com grandes amostras e meta-análises) publicados de 2015 a 2025, todos focados em quatro categorias diagnósticas em meninas adolescentes:

  1. Transtorno do Espectro Autista (TEA) de Alto Funcionamento (nível 1 no DSM-5)
  2. Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH; subtipo predominantemente desatento, hiperativo/impulsivo ou combinado)
  3. Transtorno de Personalidade Borderline (TPB)
  4. Transtornos de Ansiedade (Transtorno de Ansiedade Generalizada [TAG] e Transtorno de Ansiedade Social [Fobia Social])

Ao longo desta revisão, destacamos sintomas clínicos, perfis comportamentais, traços de personalidade e perfis cognitivos/neuropsicológicos em adolescentes do sexo feminino — enfatizando semelhanças (por exemplo, dificuldades emocionais) e diferenças (por exemplo, variações na motivação social, estabilidade de identidade e funcionamento executivo). Apresentamos, ainda, uma comparação sintética ao final, organizada em texto, para substituir a tabela original. Em última instância, uma avaliação multimodal — que inclua entrevistas estruturadas, escalas de avaliação, questionários de personalidade e testes neuropsicológicos — é fundamental para um diagnóstico preciso e intervenções terapêuticas direcionadas.


Perfis de Sintomas Clínicos

TEA de Alto Funcionamento (Adolescentes do Sexo Feminino)

Meninas com TEA de alto funcionamento exibem déficits persistentes na comunicação/interação social e padrões restritos ou repetitivos de comportamento. Contudo, as adolescentes podem ter sintomas mais sutis ou camuflados, frequentemente imitando comportamentos para se adaptar. Isso pode atrasar o diagnóstico. Apesar de disfarçar as dificuldades sociais, muitas têm estresse interno significativo, ansiedade e, por vezes, crises de desregulação quando expostas a sobrecarga sensorial ou social. Evidências mostram ainda que meninas com TEA têm maior probabilidade de apresentar comorbidades internalizantes, como ansiedade, em comparação a meninos com TEA.

TDAH (Adolescentes do Sexo Feminino)

Os sintomas de TDAH em meninas adolescentes podem diferir do padrão observado em meninos. As meninas costumam apresentar mais o subtipo desatento — caracterizado por devaneios, desorganização e esquecimento — embora também surjam características hiperativas/impulsivas. Problemas internalizantes são frequentemente comórbidos, o que pode levar a diagnósticos equivocados, como transtornos de ansiedade ou do humor. Embora o TDAH possa incluir labilidade emocional, as oscilações de humor tendem a ser mais curtas e situacionais, diferindo da reatividade intensa encontrada no TPB. Diferentemente do TEA, a maioria das meninas com TDAH não apresenta déficits marcantes na intuição social; em geral, os problemas sociais surgem mais por impulsividade ou desatenção.

Transtorno de Personalidade Borderline (TPB)

A principal característica do TPB é a instabilidade generalizada — desregulação afetiva, relacionamentos interpessoais conturbados, perturbação da identidade e comportamentos impulsivos e autodestrutivos. Em meninas adolescentes, o TPB pode se manifestar com automutilação repetida e comportamentos suicidas desencadeados por rejeição percebida, refletindo medo intenso de abandono. Apesar de certa sobreposição com o TDAH em impulsividade e desregulação emocional, o TPB se diferencia por seu padrão crônico de caos relacional, fragmentação de identidade e intencionalidade de autodestruição. Diferentemente do TEA e do TDAH, o TPB envolve um medo interpessoal persistente.

Transtornos de Ansiedade (TAG & Fobia Social)

Meninas adolescentes com TAG ou fobia social costumam ter preocupações e medos excessivos, com comportamentos de evitação. No TAG, há preocupação difusa em diversas áreas (escola, saúde, futuro etc.), acompanhada de tensão física e dificuldade de concentração devido aos pensamentos acelerados. Na ansiedade social, o medo intenso de avaliação negativa leva à evitação de situações sociais ou de desempenho. Ambas podem se assemelhar a TEA (isolamento social) ou TDAH (dificuldade de concentração), mas o fator determinante é o medo, não um déficit de desenvolvimento (TEA) nem a desatenção primária (TDAH). Além disso, adolescentes ansiosas costumam manter boa percepção de que sua preocupação é exagerada ou irracional.


Perfis Comportamentais

TEA (Nível 1).
Meninas com TEA de alto funcionamento podem parecer quietas, introvertidas ou “tímidas”, embora essa evitação social seja mais decorrente de déficits na cognição social do que de medo propriamente dito. São comuns rotinas rígidas, sensibilidades sensoriais e crises de desregulação quando submetidas a sobrecarga sensorial ou social.

TDAH.
Meninas com TDAH podem manifestar desorganização, esquecimento e inquietação (física ou mental). A hiperatividade tende a ser mais sutil, percebida como tagarelice ou agitação constante, ao invés de comportamentos disruptivos evidentes. A impulsividade em situações sociais (interrupções, comentários precipitados) pode gerar conflitos com colegas. Há risco de comportamentos de risco (uso de substâncias, autolesão), geralmente por impulsividade e não por intenção de autodestruição.

TPB.
No TPB, o comportamento é marcado por alta reatividade emocional e autolesão deliberada. A adolescente pode oscilar rapidamente entre raiva intensa e idealização, rompendo e reatando amizades ou relacionamentos de forma caótica. Automutilações (cortes, overdose) geralmente emergem como reação à rejeição percebida. A impulsividade pode ser alta, mas, ao contrário do TDAH, está fortemente ligada a motivações interpessoais (por exemplo, medo de abandono).

Transtornos de Ansiedade.
A característica comportamental mais marcante é a evitação. Na ansiedade social, evitam-se situações temidas (apresentações, festas), enquanto no TAG se observam comportamentos de checagem, superpreparação ou busca constante de garantia. Essas adolescentes costumam ser cautelosas, evitam conflitos e seguem regras, diferentemente da impulsividade no TDAH ou da volatilidade no TPB.


Perfis de Personalidade

Estudos baseados no Modelo dos Cinco Grandes Fatores (Big Five) indicam padrões característicos em cada grupo:

  • TEA de Alto Funcionamento: Neuroticismo alto, Extroversão/Agradabilidade/Conscienciosidade baixos, refletindo ansiedade, isolamento social e preferência por rotinas. A identidade tende a ser estável, mas pouco definida socialmente, frequentemente focada em interesses específicos.

  • TDAH: Geralmente baixa Conscienciosidade (desorganização), baixa Agradabilidade (impulsividade, impaciência) e Neuroticismo moderado/alto (reatividade ao estresse). A Extroversão pode variar conforme o subtipo (hiperativo pode ser mais extrovertido; desatento pode ser mais introvertido). A identidade costuma ser íntegra, mas a autopercepção pode ser prejudicada por fracassos recorrentes.

  • TPB: Neuroticismo extremamente elevado (emocionalidade intensa), Agradabilidade muito baixa (hostilidade, desconfiança) e Conscienciosidade baixa (impulsividade). A perturbação de identidade — instável e fragmentada — é central e não costuma aparecer em TEA, TDAH ou ansiedade pura.

  • Transtornos de Ansiedade: Tipicamente Neuroticismo alto (medo, preocupação), Extroversão baixa (sobretudo na fobia social) e Agradabilidade/Conscienciosidade em níveis normais ou até elevados (ex.: perfeccionismo no TAG). Isso as diferencia da impulsividade vista no TDAH ou TPB, e não há fragmentação de identidade.


Perfis Cognitivos e Neuropsicológicos

TEA

Mesmo em TEA de alto funcionamento, costuma haver um perfil cognitivo “irregular”: forças relativas em raciocínio, mas fraqueza notável em velocidade de processamento e memória de trabalho (Cognitive Profile in Autism and ADHD: A Meta-Analysis of Performance on the WAIS-IV and WISC-V - PMC). Déficits em cognição social (teoria da mente, reconhecimento de emoções) são essenciais, diferenciando TEA de ansiedade ou TDAH, que não têm esse déficit intrínseco.

TDAH

O cerne do TDAH é a disfunção executiva, abrangendo atenção sustentada, inibição de respostas e memória de trabalho. Em testes contínuos de desempenho, adolescentes com TDAH (incluindo meninas) costumam apresentar mais erros de omissão e de comissão que os grupos-controle. Diferentemente do TEA, não há déficits marcantes na compreensão social; o problema surge mais pela impulsividade e dificuldade de atenção.

TPB

Apesar de ser um transtorno de personalidade, pesquisas mostram disfunção executiva em flexibilidade cognitiva, planejamento, memória de trabalho e inibição, sobretudo em contexto emocional. A cognição social é muitas vezes hiper-reativa — há forte sensibilidade a pistas negativas, mas também tendência a interpretar sinais neutros como hostis. A instabilidade de identidade (e possíveis estados dissociativos) afeta memória e consistência de desempenho.

Transtornos de Ansiedade

A ansiedade em si não costuma provocar déficits amplos em testes neuropsicológicos. Em vez disso, surgem viés de atenção a ameaças (por exemplo, lentidão em tarefas com palavras ameaçadoras) e lapsos de concentração decorrentes de preocupações. Em condições calmas, adolescentes ansiosas podem ter desempenho normal ou até excelente. Qualquer prejuízo cognitivo tende a ser dependente do estado emocional, diferentemente dos déficits mais consistentes no TDAH ou TEA.


Comparação

A seguir, apresentamos um resumo textual das principais semelhanças e diferenças em cada domínio, para cada um dos quatro grupos:

1) Sintomas Clínicos

  • TEA de Alto Funcionamento: Déficits na comunicação/interação social e interesses restritos/repetitivos. Comorbidades como ansiedade/depressão são comuns. Sintomas desde a primeira infância, sem o medo social característico das fobias.
  • TDAH: Desatenção (desorganização, esquecimento) e/ou hiperatividade-impulsividade (inquietação, fala excessiva). Em meninas, predomina a forma desatenta. Muitos casos têm problemas internalizantes, levando a diagnósticos errôneos de ansiedade.
  • TPB: Desregulação emocional grave, autoimagem instável, medo de abandono e comportamentos autolesivos recorrentes. A reatividade intensa a gatilhos interpessoais difere de TEA e TDAH.
  • Transtornos de Ansiedade: Preocupação ou medo excessivo, resultando em evitação. No TAG, a preocupação se estende a várias áreas; na fobia social, há medo específico de avaliação negativa. Insight de que o medo é exagerado.

2) Perfil Comportamental

  • TEA (Nível 1): Pode parecer tímida/quieta, mas por déficit de cognição social. Crises (meltdowns) diante de sobrecarga. Comportamentos repetitivos, forte apego a rotinas.
  • TDAH: Desorganização, esquecimento, impulsividade social (interrupções, fala desenfreada). Possíveis comportamentos de risco (substâncias, autolesão impulsiva). Crises de raiva ou frustração são curtas e menos profundas que no TPB.
  • TPB: Oscilações emocionais dramáticas, automutilação e comportamentos suicidas ligados a vivências de rejeição. Relacionamentos turbulentos e impulsividade reativa à dor emocional.
  • Ansiedade (TAG/Fobia Social): Evitação comportamental (falta a eventos, busca refúgio em locais seguros). Para TAG, há checagens e perfeccionismo; na fobia social, retraimento em situações de exposição. Tendência a seguir regras, ser cautelosa.

3) Perfil de Personalidade

  • TEA: Alto Neuroticismo, e baixa Extroversão, Agradabilidade, Conscienciosidade. Identidade focada em interesses específicos, com déficit de percepção social.
  • TDAH: Baixa Conscienciosidade (impulsividade, desorganização), Agradabilidade menor (impaciência), Neuroticismo moderado/alto (reatividade a estresse). A Extroversão varia. Identidade sem perturbação profunda, mas autoconfiança pode estar abalada.
  • TPB: Neuroticismo extremamente elevado, Agradabilidade baixa (hostilidade, desconfiança) e Conscienciosidade baixa (impulsividade). Identidade fragmentada e instável — algo único nesse grupo.
  • Ansiedade: Neuroticismo alto (medo, preocupação), em geral baixa Extroversão na fobia social; Agradabilidade e Conscienciosidade normais ou elevadas (especialmente em TAG, com perfeccionismo). Identidade preservada, embora permeada por autocrítica.

4) Perfil Cognitivo / Neuropsicológico

  • TEA: Quociente intelectual muitas vezes dentro ou acima da média, mas com perfil irregular (pontos fracos em velocidade de processamento e memória de trabalho). Déficits marcados em cognição social (teoria da mente).
  • TDAH: Disfunção executiva generalizada — atenção sustentada, inibição, memória de trabalho e organização prejudicadas. Em testes de desempenho contínuo, surgem mais erros por desatenção ou impulsividade. Ausência de grande déficit na leitura de sinais sociais (salvo comorbidades).
  • TPB: Em situações neutras, o desempenho pode ser normal; sob estresse emocional, há quedas significativas em flexibilidade, inibição e planejamento. “Hipervigilância” social voltada a pistas negativas, mas também distorções. Estados dissociativos podem afetar memória.
  • Ansiedade: Geralmente não há déficits cognitivos fundamentais; o desempenho pode ser alto se a pessoa estiver tranquila. Observa-se viés de atenção para ameaças e prejuízo por ruminação. Queda pontual de eficiência cognitiva quando a ansiedade é elevada.

Conclusão

Distinguir TEA de alto funcionamento, TDAH, TPB e transtornos de ansiedade em meninas adolescentes requer uma avaliação cuidadosa que reconheça tanto as sobreposições (ex.: sintomas emocionais) quanto os marcadores específicos de cada quadro. Enquanto todas essas condições podem envolver dificuldades sociais ou emocionais, cada grupo apresenta características definidoras:

  • TEA: Déficits na cognição social e preferência por rotinas, camuflagem e sobrecargas sensoriais.
  • TDAH: Desatenção/hiperatividade-impulsividade de origem neurodesenvolvimental, disfunções executivas e risco de problemas secundários (autoestima, desempenho acadêmico).
  • TPB: Instabilidade emocional severa, relacionamentos caóticos, automutilação e perturbação de identidade.
  • Ansiedade: Medos e preocupações excessivos, normalmente com insight de que são desproporcionais, mas sem déficit social básico ou instabilidade identitária crônica.

O processo de avaliação deve ser multimodal: entrevistas diagnósticas estruturadas, escalas de comportamento (por exemplo, ADOS-2, Conners CBRS, BPFSC-11, GAD-7, SAS-A), testes neuropsicológicos e histórico detalhado ajudam a diferenciar condições que podem se sobrepor. A compreensão das particularidades das apresentações femininas (por exemplo, camuflagem no TEA ou hiperatividade verbal no TDAH) é crucial para um diagnóstico acurado. Intervenções podem então ser melhor direcionadas: treinamento de habilidades sociais e adaptações sensoriais no TEA, medicação estimulante e apoio executivo no TDAH, terapia comportamental dialética para TPB e terapia cognitivo-comportamental (com exposição e reestruturação cognitiva) para ansiedade, associadas a farmacoterapia quando necessário.


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DANILO PEREIRA