Dos sete milhões de adultos vivendo com doença de Alzheimer nos Estados Unidos, quase dois terços são mulheres. A disparidade reaparece em outras coortes, em outras geografias, e na maioria das estimativas internacionais — e foi historicamente atribuída, com algum conforto, à maior longevidade feminina. Um estudo publicado em 19 de maio de 2026 na Biology of Sex Differences, somado a uma série de análises latino-americanas e brasileiras recentes, desmonta essa explicação fácil: a maior longevidade não dá conta sozinha do excesso de risco. Fatores de risco modificáveis para demência em mulheres não apenas são mais prevalentes em algumas dimensões — frequentemente exercem efeito cognitivo mais pronunciado em comparação a homens com o mesmo perfil de exposição.

Contexto: a Lancet Commission 2024 e o tamanho do potencial preventivo

A terceira atualização da Lancet Standing Commission on Dementia Prevention, Intervention, and Care, publicada por Livingston e colaboradores em 2024, consolidou a evidência de que aproximadamente 45% dos casos de demência são potencialmente evitáveis pelo manejo de 14 fatores de risco modificáveis ao longo do curso de vida. À lista anterior de 12 fatores — baixa escolaridade, perda auditiva, traumatismo cranioencefálico, hipertensão, álcool, obesidade, tabagismo, depressão, isolamento social, sedentarismo, poluição atmosférica e diabetes — foram adicionadas duas exposições com evidência robusta acumulada nos últimos quatro anos: colesterol LDL elevado na meia-idade e perda visual não tratada em idosos.

O número de 45% é, por si só, um chamado clínico. Para o neuropsicólogo que vê pacientes em fase de meia-idade com queixas de memória, ou idosos em avaliação para diagnóstico diferencial, a Lancet Commission deixa claro que parte substancial do desfecho cognitivo futuro está distribuída em fatores manejáveis hoje. O que a evidência mais recente acrescenta é que essa distribuição não é equitativa entre sexos.

Especialização em Neuropsicologia Clínica IBNeuro — avaliação cognitiva de demências

O que mostra o estudo de Fitzhugh e Pa (2026)

Megan Fitzhugh e Judy Pa, do School of Medicine da Universidade da Califórnia em San Diego, analisaram dados de 17.182 adultos de meia-idade e idosos do Health and Retirement Study — uma coorte representativa da população norte-americana. O grupo, com idade média próxima a 69 anos, era composto por 59% de mulheres. Os pesquisadores examinaram 13 fatores de risco modificáveis, abrangendo determinantes psicossociais, comportamentais e cardiometabólicos.

Os resultados se distribuem em dois eixos distintos — prevalência diferencial e efeito diferencial sobre cognição — que precisam ser lidos juntos.

Diferenças de prevalência

Algumas exposições foram mais comuns em mulheres: depressão (17% versus 9% em homens — quase o dobro), sedentarismo (48% versus 42%), problemas de sono (45% versus 40%) e, ligeiramente, menor escolaridade média. Outras foram mais comuns em homens: perda auditiva (64% versus 50%), diabetes (24% versus 21%) e consumo abusivo de álcool (22% versus 12%). A hipertensão atingiu cerca de seis em cada dez participantes em ambos os sexos, e o índice de massa corporal médio situou-se em faixa de sobrepeso ou obesidade nos dois grupos.

Diferenças de impacto sobre a cognição

Aqui está o achado clinicamente mais consequente. Condições cardiometabólicas como hipertensão e IMC elevado mostraram associação negativa com cognição substancialmente mais inclinada em mulheres do que em homens. Curiosamente, a perda auditiva e o diabetes — exposições mais prevalentes em homens — também se associaram a pior desempenho cognitivo mais fortemente em mulheres. Em outras palavras: a mesma exposição pesa mais sobre a cognição feminina, mesmo quando é menos comum nesse grupo.

A leitura adequada desse padrão exige cuidado interpretativo. Não significa que mulheres sejam intrinsecamente "mais frágeis" cognitivamente. Significa que a interação entre exposição modificável e cognição é modulada por sexo e gênero — provavelmente por uma combinação de fatores hormonais (estradiol e seus efeitos sobre estruturas frontotemporais ao longo do climatério), genéticos (notadamente o gene APOE, cujo alelo ε4 confere risco substancialmente maior em mulheres do que em homens), e sociais (acesso desigual a cuidado, sobrecarga de cuidado informal, padrões diferenciais de atividade física e participação social).

A perspectiva brasileira: o que dizem os dados da nossa população

Generalizar achados de uma coorte norte-americana de classe média para a clínica brasileira exige cautela — e felizmente a produção científica brasileira tem oferecido referências sólidas. Suemoto, Mukadam, Brucki e colaboradores (2023), em estudo publicado em Alzheimer's & Dementia com 9.412 participantes do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), estimaram que 48,2% dos casos de demência no Brasil são potencialmente atribuíveis ao conjunto de fatores modificáveis — uma fração mais alta que os 40% (em 2020) e 45% (em 2024) calculados para populações de alta renda. Essa diferença não é detalhe estatístico: significa que há mais espaço para prevenção no Brasil do que em países de alta renda, justamente porque os fatores modificáveis estão mais presentes na nossa população.

Os três fatores com maior fração atribuível populacional no Brasil são baixa escolaridade (PAF de 7,7%), hipertensão (7,6%) e perda auditiva (6,8%). As regiões Norte e Nordeste, com maior prevalência de baixa escolaridade, têm perfil de risco diferente das regiões Sul e Sudeste, onde hipertensão e obesidade pesam mais. Para o neuropsicólogo brasileiro, esse mapeamento regional importa: o paciente de 65 anos em Recife com cinco anos de estudo e o paciente do mesmo perfil em Porto Alegre com hipertensão de longa data têm perfis de risco modificável distintos, exigindo abordagens preventivas distintas.

Ribeiro, Crivelli e Leist (2023), em The Lancet Healthy Longevity, complementam o quadro com leitura específica para a América Latina. As autoras destacam que mulheres latino-americanas enfrentam combinação particular de fatores — menor acesso histórico à educação, sobrecarga de cuidado informal não remunerado, dupla jornada de trabalho, exposição prolongada a violência doméstica, maior prevalência de depressão e menor acesso a tratamento adequado — que ajudam a explicar por que a prevalência de demência é mais alta e o início mais precoce em mulheres da região, mesmo após ajuste para expectativa de vida.

Avaliação neuropsicológica para diagnóstico diferencial de demência

Implicações para a prática clínica

Algumas orientações práticas seguem do conjunto dessa evidência, particularmente para a clínica brasileira:

  • Anamnese ampliada de fatores modificáveis. Em pacientes do sexo feminino — especialmente na faixa entre 50 e 70 anos, ainda em janela de prevenção — vale dedicar tempo da anamnese para mapear sistematicamente os 14 fatores da Lancet 2024: escolaridade, perda auditiva, traumatismo cranioencefálico, hipertensão, álcool, obesidade, tabagismo, sintomas depressivos, isolamento social, sedentarismo, exposição a poluição atmosférica, diabetes, colesterol LDL e função visual. Esses dados deixam de ser apenas contexto de história e passam a ser dados ativamente acionáveis.
  • Atenção redobrada à depressão como fator de risco — não apenas como diagnóstico diferencial. Em mulheres, depressão é praticamente o dobro mais prevalente que em homens. Para o neuropsicólogo clínico, isso significa que a hipótese diagnóstica clássica "é demência ou é depressão?" precisa ser substituída por uma hipótese mais matizada: "é depressão e trajetória de risco para demência cuja janela de intervenção ainda está aberta?" Tratamento adequado de depressão em meia-idade não é apenas alívio sintomático — é prevenção secundária de demência.
  • Hipertensão no laudo, não só na anamnese. Quando a paciente apresenta hipertensão de longa data, especialmente se mal controlada, registrar isso no laudo neuropsicológico como dado clinicamente relevante para o raciocínio diagnóstico e para a comunicação com a equipe médica reflete o estado atual da evidência. Hipertensão na meia-idade com PAS > 130 mmHg está entre os fatores com maior impacto cognitivo nesse grupo.
  • Pensar em rede, não em fatores isolados. A perspectiva da rede de psicopatologia ( Robinaugh, Hoekstra, Toner e Borsboom, 2020), útil em outros contextos clínicos, ajuda também aqui. Mulher com baixa escolaridade, depressão não tratada, sedentarismo e perda auditiva não tem quatro fatores isolados — tem uma rede de exposições interligadas em que cada nó reforça os demais (depressão reduz atividade física; sedentarismo agrava ganho de peso; ganho de peso e isolamento social potencializam sintomas depressivos; perda auditiva acelera isolamento). Intervenções pontuais tendem a falhar onde intervenções coordenadas — frequentemente em parceria com equipes de atenção primária — podem ter ganho exponencial.

Limitações e cuidados interpretativos

Diversas ressalvas devem acompanhar a leitura clínica desses achados.

O estudo de Fitzhugh e Pa (2026) é transversal — observa associações entre exposição e desempenho cognitivo em um único ponto, não estabelece causalidade. Mulheres podem apresentar associação mais forte entre hipertensão e cognição não porque a hipertensão seja "mais tóxica" no cérebro feminino, mas porque outros fatores correlatos (estresse crônico, qualidade de sono, acesso ao tratamento) modulam essa relação. Estudos longitudinais com modelagem causal explícita são necessários para refinar o quadro.

A distinção entre sexo (biológico) e gênero (social) raramente é feita com clareza nesses estudos, e as duas dimensões estão emaranhadas em quase todos os fatores discutidos. Atribuir a vulnerabilidade diferencial feminina apenas a "biologia hormonal" ignora décadas de desigualdade educacional e econômica; atribuí-la apenas a fatores sociais ignora evidência sólida sobre o efeito do APOE ε4, do estradiol e da senescência reprodutiva. A leitura clínica honesta sustenta a interação.

A coorte HRS é norte-americana e não representa adequadamente a heterogeneidade da população brasileira em raça, escolaridade média, acesso a saúde e fatores climáticos. Os achados de Suemoto et al. (2023) e Ribeiro et al. (2023) oferecem ancoragem importante, mas mesmo dentro do Brasil há gradiente regional substancial que limita generalizações nacionais únicas.

Por fim, é importante não traduzir "fatores modificáveis" como "responsabilidade individual". Baixa escolaridade reflete política pública, não escolha; acesso a tratamento de hipertensão e depressão depende de cobertura do sistema de saúde; sedentarismo entre cuidadoras informais não é falha de disciplina. A literatura sobre prevenção pode informar a clínica individual, mas não substitui a discussão sobre determinantes sociais de saúde — e o laudo neuropsicológico, quando relevante, pode dar visibilidade a essas dimensões.

Considerações finais

A constatação de que mulheres respondem por dois terços dos casos de Alzheimer deixa de ser explicada apenas por maior longevidade. A evidência mais recente — internacional, latino-americana e brasileira — converge para uma leitura mais consequente: mulheres carregam, em média, mais fatores de risco modificáveis ao longo da vida, e esses fatores tendem a exercer efeito cognitivo proporcionalmente maior nelas. Para o neuropsicólogo clínico brasileiro, isso reorganiza prioridades clínicas: ampliar a anamnese de fatores modificáveis, tratar a depressão de meia-idade como prevenção, dar peso adequado à hipertensão e à perda auditiva no raciocínio diagnóstico, e pensar em rede de exposições em vez de fatores isolados. Pequenas mudanças no que se documenta no laudo, no que se discute com a paciente e na comunicação com a equipe médica podem ter impacto desproporcional ao longo da janela de prevenção que ainda está aberta para a maioria dessas mulheres.

 

Referências

Fitzhugh, M. C., & Pa, J. (2026). Sex differences in modifiable risk factors of dementia and their associations with cognition. Biology of Sex Differences, 17(1). https://doi.org/10.1186/s13293-026-00908-7

Livingston, G., Huntley, J., Liu, K. Y., Costafreda, S. G., Selbæk, G., Alladi, S., Ames, D., Banerjee, S., Burns, A., Brayne, C., Fox, N. C., Ferri, C. P., Gitlin, L. N., Howard, R., Kales, H. C., Kivimäki, M., Larson, E. B., Nakasujja, N., Rockwood, K., … Mukadam, N. (2024). Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission. The Lancet, 404(10452), 572–628. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(24)01296-0

Ribeiro, F. S., Crivelli, L., & Leist, A. K. (2023). Gender inequalities as contributors to dementia in Latin America and the Caribbean: What factors are missing from research? The Lancet Healthy Longevity, 4(6), e284–e291. https://doi.org/10.1016/S2666-7568(23)00052-1

Robinaugh, D. J., Hoekstra, R. H. A., Toner, E. R., & Borsboom, D. (2020). The network approach to psychopathology: a review of the literature 2008-2018 and an agenda for future research. Psychological medicine50(3), 353–366. https://doi.org/10.1017/S0033291719003404 

Suemoto, C. K., Mukadam, N., Brucki, S. M. D., Caramelli, P., Nitrini, R., Laks, J., Livingston, G., & Ferri, C. P. (2023). Risk factors for dementia in Brazil: Differences by region and race. Alzheimer's & Dementia, 19(5), 1849–1857. https://doi.org/10.1002/alz.12820